quarta-feira, 18 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A morte 11


 
É UMA CRIANÇA

 Por que tantos soluços?
É uma criança. Brincou
E adormeceu.
Os anjos estão presentes
(não soluceis)
Com delicados pés de lã
E asas de neve. 

Que tragam flores outras crianças. 

Nada mais lindo que uma pálida
Criança adormecida entre flores.
E, enquanto os anjos dedilham
Cítaras de ouro, suavíssimas,
As outras crianças em torno
Da que repousa, dancem. 

Dancem com flexibilidade de junco
À beira do rio. Dancem
Com inocência de borboletas
À entrada do bosque. Dancem
Com leveza de zéfiro
Levantando cortinas.
 

Dancem como cabelos livres
E os tenros braços no alto
Em forma de foice. Ou de arco.
(a foice para ceifar espigas,
O arco para protegê-las.)

 
Dancem de modo tão perfeito
(nos lábios coral e pérola)
Que a criança dormida sonhe
E murmure consigo: a morte,
Como é bela.

 In Flor da Morte, Henriqueta Lisboa, Editora UFMG, Belo Horizonte, 2004.

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