segunda-feira, 23 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A MORTE 16

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VEM, DOCE MORTE
 
Vem, doce morte. Quando queiras.
Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens
Desfiam pálidos casulos
E o suspiro das árvores – secreto –
Não é senão prenúncio
De um delicado acontecimento. 

Quando queiras. Ao meio-dia, súbito
Espetáculo deslumbrante e inédito
De rubros panoramas abertos
Ao sol, ao mar, aos montes, às planícies
Com celeiros refertos e intocados. 

Quando queiras. Presentes as estrelas
Ou já esquivas, na madrugada
Com pássaros despertos, à hora
Em que os campos recolhem as sementes
E os cristais endurecem de frio.
 

Tenho o corpo tão leve (quando queiras)
Que a teu primeiro sopro cederei distraída
Como um pensamento cortado
Pela visão da lua
Em que acaso – mais alto – refloresça.
 
In Flor da morte, Henriqueta Lisboa, Editora UFMG, Bh, 2004.
 


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