quarta-feira, 25 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A morte 18


“Alguém, trajado de seda branca, percebe que não pode despertar; pois está desperto e perturbado pela realidade. Assim se refugia medrosamente no sonho, e permanece de pé no parque, sozinho no negro parque. E a festa é longe. E a luz mente. E a noite o envolve, fresca. E pergunta a uma mulher que para ele se inclina:
‘És tu a noite?’

Ela sorri.
Então, ele se envergonha de seu traje branco.

E quereria estar longe, sozinho, armado.
Completamente armado.

.................................................................................
Esqueceste que por hoje és meu pajem? Queres abandonar-me? Para onde vais? Teu trajo branco dá-me direito a ti’.

.........................................................................................................
Suspirar pela tua grosseira roupa?

....................................................................................................
Sentes frio? Tens saudades de teus pais?
A condessa sorri.

Não. É somente porque a infância lhe caiu dos ombros, - esse suave trajo nubloso. Quem lhe arrebatou? ‘Tu?’ pergunta com uma voz que nunca tinha ouvido. ‘Tu?’

E agora não há nada por cima dele. E está despido como um santo. Claro e esguio.

 In A Canção de amor e de morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, tradução de Cecília Meireles, Editora Globo, 1988.

Nenhum comentário:

Postar um comentário