quinta-feira, 26 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A morte 19

O FILHO DO HOMEM

 Na sexta-feira amarrado
Como se fosse um bandido,
Jesus com grande alarido

A Pilatos foi levado.

Ele o julgando inocente
Ao rei Herodes mandou

E as próprias mãos as lavou
Para mostrar-se clemente


Os inimigos mesquinhos
As três horas o açoitaram

e sua fronte adornaram
Com uma coroa de espinhos

Escarnecido e humilhado

Entre golpes avançava
E a cruz nos ombros levava

Para ser crucificado.


As seis horas já despido,
E colocado na cruz,

O seu sangue em plena luz
Era ali mesmo vertido.

Os ladrões que tinha ao lado

Não cessaram de o ofender
Até o sol se esconder

Ante o povo aglomerado.


‘Deus! Por que me abandonou!’
Gemeu com voz apagada,

E uma esponja avinagrada
Para dar-lhe alguém levou.

Rasga-se o véu por inteiro
Do templo. A terra tremeu

Quando na cruz ele deu
O suspiro derradeiro.

Mas já a noite caía
E um soldado junto a cruz

O corpo nu de Jesus
Com a sua lança o feria.

Das feridas que o consomem
Sangue água ali brotaram.

E foi assim que trataram
Jesus, o filho do homem.

In Antologia Poética, Bertold Brecht, Elo Editora, RJ, 1983.


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