quarta-feira, 11 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A MORTE 4


 
“É estranho que nesses testemunhos não figurem as habituais atitudes frente à morte: o medo e a esperança. O medo é contrastado pelo taedium vitae, que faz da morte um destino que não se deve temer, mas desejar. À esperança – que pode acudir o sofredor até em situações que parecem desesperadoras, e é a esperança de cura, ou de um caminho para uma nova vida – opõe-se o cupio dissolvi, ou o desejo de dissolução, de deixar de existir. Taedium vitae e cupio dissolvi, por sua vez, nada têm a ver com o contemptus mundi dos místicos, para quem a vida é igualmente miserável, mas a miséria é o fruto não de um Deus indiferente ou mau, mas de uma culpa, e o desprezo pelo mundo é ‘a natural passagem para a ascensão a Deus’. Ora, para aquele que julga que a vida é tédio e desejo de se anular, a morte é o ansiado repouso depois do desmedido e inútil esforço de viver. Já se escreveu: ‘A minha força vital está tão desfeita que já não consegue ver para além do sepulcro, já não consegue temer e desejar nada mais além da morte. Não posso pensar em um Deus tão impiedoso a ponto de acordar alguém que dorme morto de cansaço aos seus pés.”
In O tempo da memória, De senectute e outros  escritos autobiográficos, Norberto Bobbio, Editora Campus, RJ, 1997.
norberto bobbio01g


Nenhum comentário:

Postar um comentário