quinta-feira, 12 de setembro de 2013

APRENDIZ DE PRIMAVERA: A MORTE 5



“Sempre lhe perguntam o que você quer dizer quando xinga a morte. Querem de você as esperanças baratas que foram despejadas nas religiões até o esgotamento. Mas eu nada sei. Eu não tenho nada a dizer a esse respeito. Meu caráter e meu orgulho resultam de que eu jamais adulei a morte. Como todo mundo, eu às vezes a desejei, muito raramente, mas pessoa alguma jamais ouviu de mim um elogio à morte; ninguém pode dizer  que curvei meu dorso diante dela, que eu a tivesse reconhecido ou depurado. Ela me parece tão inútil e maligna como sempre, o mal capital em tudo que existe, o insolucionado e o incompreendido, o nó, no qual tudo está atado e embaraçado e que ninguém se atreveu a desfazer (1951)

Para cada um, é uma pena. Ninguém jamais deveria ter morrido. O pior crime não estaria à altura da morte, e sem o reconhecimento da morte jamais teriam ocorrido crimes horrendos. (1951)

Deveríamos imaginar um mundo no qual jamais houve um assassinato. Como seriam, num mundo assim, os demais crimes? (1951)

O mais importante a gente carrega durante quarenta ou cinquenta anos, até que a gente se atreva a expressá-lo de maneira articulada. Já por causa disso nem se pode medir o que se perde com aqueles que morrem cedo. Todos morrem cedo. (1951)

 In Sobre a Morte, Elias Canetti, Editora Estação Liberdade, SP,2009.


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