domingo, 22 de setembro de 2013

BOA SEMANA: com Benjamin e Hannah

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“Benjamin foi provavelmente o marxista mais singular já produzido por esse movimento que, sabe Deus, teve seu quinhão completo de excentricidades. O aspecto teórico que acabaria por fasciná-lo era a doutrina da superestrutura, que fora apenas rapidamente esquematizada por Marx, mas assumira então um papel desproporcional no movimento, quando esse passou a contar com um número desproporcionalmente grande de intelectuais e, portanto, gente interessada apenas na superestrutura. Benjamin utilizou essa doutrina apenas como um estímulo heurístico-metodológico e dificilmente estava interessado em sua base histórica ou filosófica. O que aí o fascinava era que o espírito e sua manifestação material estavam tão intimamente ligados que parecia possível descobrir, em todas as partes, as correspondances de Baudelaire, as quais, se fossem adequadamente correlacionadas, se esclareciam e se iluminariam umas às outras de modo que , ao final, não mais precisariam de nenhum comentário interpretativo ou explicativo. Ele estava interessado na correlação entre uma cena de rua, uma especulação na Bolsa de Valores, um poema, um pensamento, com a linha oculta que as une e permite ao historiador ou ao filólogo reconhecer que devem ser todos situados no mesmo período. Quando Adorno criticou a ‘apresentação aberta de atualidades ‘ de Benjamin, pegou o ponto exato; era precisamente o que Benjamin fazia e queria fazer. Fortemente influenciado pelo surrealismo, era a ‘tentativa de capturar o retrato da história nas representações mais insignificantes da realidade, por assim dizer em suas raspas’. Benjamin tinha paixão pelas coisas pequenas, até minúsculas; Scholem conta da sua ambição de colocar cem linhas escritas na página comum de um caderno de notas, e de sua admiração por dois grãos de trigo na seção judaica do Museu Cluny, ‘onde um alma irmã inscrevera na íntegra o Shema Israel'. Para ele, a dimensão de um objeto era inversamente proporcional à sua significação. E essa paixão, longe de ser um capricho, derivava diretamente da única concepção de mundo que teve uma influência decisiva sobre ele, a convicção de Goethe sobre a existência fática de um Urphänomen, um fenômeno arquetípico, uma coisa concreta a ser descoberta no mundo das aparências, na qual coincidiriam ‘significado (Bedeutung, a mais goethiana das palavras, é recorrente nos textos de Benjamin) e fosse o objeto, tanto mais provável pareceria poder conter tudo sob a mais concentrada forma; daí seu deleite em que dois grãos de trigo contivessem todo o Shema Israel, a essência mesma do judaísmo, a mais minúscula essência parecendo na mais minúscula entidade, de onde, em ambos os casos, tudo o mais se origina, embora em significado não possa ser comparado à sua origem. Em outras palavras, o que desde o início fascinou Benjamin nunca foi uma ideia, foi sempre um fenômeno. ‘O que parece paradoxal em tudo que é, com justiça, chamado de belo é o fato de que apareça’, e esse paradoxo – ou, mais simplesmente, a maravilha da aparência – sempre esteve no centro de todas as suas preocupações.”

 In Homens em tempos sombrios, Hannah Arendt, Companhia das Letras, SP, 2010.
(Seated from left) Nicola Chiaromonte, Mary McCarthy, Robert Lowell. (Standing from left) Heinrich Blucher, Hannah Arendt, Dwight McDonald, and Gloria MacDonald. Courtesy Vassar College Library.

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