domingo, 15 de setembro de 2013

VOTOS DE BOA SEMANA: com Paul Auster

Lembrança
 
“TEXTO ESPELHO.

Se a voz de uma mulher que conta histórias tem o poder de trazer crianças ao mundo, é também verdade que uma criança tem o poder de dar vida a histórias. Dizem que um homem ficaria louco se não pudesse sonhar à noite. Do mesmo modo, se não é permitido a uma criança entrar no imaginário, ela nunca se verá frente a frente com o real. A necessidade de histórias que a criança sente é tão fundamental quanto sua necessidade de comida, e se manifesta da mesma forma que a fome. Conte-me uma história, papai, por favor. O pai então se senta e conta uma história para o filho. Ou então se deita no escuro ao lado dele, os dois na cama da criança, e começa a falar, como se não houvesse mais nada no mundo senão sua voz, contando uma história no escuro para seu filho. Muitas vezes é um conto de fadas, ou um conto de aventuras. Porém, muitas vezes não passa de um simples salto para o imaginário. Era uma vez um menino chamado Daniel, diz A. para seu filho chamado Daniel, e essas histórias nas quais o próprio menino é o herói são talvez as que mais lhe agradam. Do mesmo modo, A. compreende, enquanto fica em seu quarto e escreve O Livro da Memória, ele fala de si mesmo como se fosse um outro, para contar sua própria história. Deve se fingir ausente, para encontrar a si mesmo ali. E assim ele diz A., mesmo quando quer dizer eu. Pois a história da memória é uma história da visão. E mesmo que as coisas a serem vistas não estejam mais presentes, é uma história da visão. A voz, portanto, continua. E mesmo quando o menino fecha os olhos e adormece,a voz do seu pai continua a falar no escuro.


O Livro da Memória. Livro Doze.

Ele não consegue ir além daí. Crianças sofreram nas mãos de adultos, sofreram sem razão absolutamente nenhuma. Crianças foram abandonadas, deixadas para morrer de fome, foram assassinadas sem razão absolutamente nenhuma. Não é possível, compreende A., ir além daí.

“Mas também existem as crianças”, diz Ivan Karamazov, “e o que hei de fazer com elas?” E de novo: “Quero perdoar. Quero abraçar. Não quero mais sofrimento. E se os sofrimentos das crianças alcançarem a soma de sofrimentos necessária pra pagar o preço da verdade, então afirmo de antemão que a verdade inteira não vale esse preço”.”
U.S. writer Paul Auster at the  University of Oviedo in northern Spain.
In A invenção da solidão, Paul Auster, Companhia das Letras, RJ, 2004

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