quinta-feira, 31 de outubro de 2013

HOJE É DIA D: para sempre Drummond



 
Carta a Stalingrado


Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus seios que estalam e caem
enquanto outros, vingadores, se elevam.


A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas, mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrirmos o jornal pela manhã teu nome (em ouro
                                    oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu                                                                                    a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos
                                                          pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.
Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto
                                                                           resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e
                                                                           silêncio
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não
                                                                                  profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues
                                                                                   sem lutas
aprendem contigo o gesto de fogo,
Também elas podem esperar.
Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas! 
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem
                                                                  trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços
                                                                   negros na parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado
A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços
                                                                       sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e
                                                                       relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado,
                                                                       senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura
                                                                                combate,
contra o frio, a fome, à noite, contra a morte a criatura
                                                                                combate,
e vence.


As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma
                                                     fumaça subindo do Volga;
Penso no colar das cidades, que se amarão e se defenderão
                                                                                  contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.


in A Rosa do Povo – Carlos Drummond de Andrade - Editora Record, SP, 1997.

GIORGIO AGAMBEN 5


“Que aquilo que define que o campo não seja simplesmente a negação da vida,que nem a morte nem o número de vítimas esgotam de modo algum o seu horror, que a dignidade ofendida não é a da vida, mas da morte; tudo isso era algo que já havia sido observado. Em entrevista concedida a Günter Gaus em 1964, Hannah Arendt descreveu com as seguintes palavras a sua reação no momento em que a verdade sobre os campos começou a ser conhecida em todos os seus detalhes:

Antes disso, dizíamos: está bem, temos inimigos. É perfeitamente natural. Por que não deveríamos ter inimigos? Mas isso era diferente. Era realmente como se tivesse se escancarado um abismo... Isso na deveria ter acontecido. Não me refiro apenas ao número das vítimas. Refiro-me ao método, à fabricação de cadáveres e a tudo mais. Não é necessário que entre em detalhes. Isso não devia acontecer. Ali aconteceu algo com que não nos podemos reconciliar. Ninguém de nós pode fazê-lo.

Parece que cada frase está tão carregada de sentido tão penoso a ponto de obrigar quem fala a recorrer a locuções que estão à metade do caminho entre o eufemismo e o inaudito. Especialmente a curiosa expressão, repetida em duas variações, ‘isso não devia acontecer’, traz um tom ressentido, pelo menos à primeira vista, que não deixa de surpreender nos lábios da autora do livro mais corajoso e desmistificador que se escreveu em nossos tempos sobre o problema do mal. A impressão acaba aumentando a partir das últimas palavras: “não nos podemos reconciliar com isso, ninguém de nós pode fazê-lo”. [...]

 Em todo caso, a expressão ‘fabricação de cadáveres’ implica que aqui já não se possa propriamente falar de morte, que não era morte aquela dos campos, mas algo infinitamente mais ultrajante que a morte. Em Auschwitz não se morria: produziam-se cadáveres. Cadáveres em morte, não-homens cujo falecimento foi rebaixado a produção em série. É precisamente a degradação da morte que constituiria, segundo uma possível e difundida interpretação, a ofensa específica de Auschwitz, o nome próprio do seu horror.”


In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, SP, 2010.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

GIORGIO AGAMBEN 4


“O bem – admitindo-se que no caso faça sentido falar de um bem – que os sobreviventes conseguiram pôr a salvo do campo não é, portanto, uma dignidade. Pelo contrário, que se possam perder dignidade e decência para além de qualquer imaginação, que ainda exista vida na degradação mais extrema – esta é a notícia atroz que os sobreviventes trazem do campo para a terra dos homens. E esta nova ciência torna-se agora a pedra de toque que julga e mede toda moral e toda dignidade. O Muçulmano, que é a formulação mais extrema da mesma, é o guardião do umbral de uma ética, de uma forma de vida, que começa onde acaba a dignidade. E Levi, testemunha dos submersos, fala em nome deles e é o cartógrafo desta e nova terra ethica, o implacável agrimensor da Muselmannland [ terra do muçulmano ].”


In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, SP, 2010.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

GIORGIO AGAMBEN 3




Giorgio Agamben
“O mulçumano penetrou em uma região do humano – pois, negar-lhe simplesmente a humanidade significaria aceitar o veredicto das SS, repetindo seu gesto – onde, dignidade e respeito de si não são de nenhuma utilidade, como também não são uma ajuda exterior. Se existe, porém,uma região do humano em que tais conceitos não têm sentido, não se trata de conceitos éticos genuínos, porque nenhuma ética pode ter a pretensão de excluir do seu âmbito uma parte do humano, por mais desagradável, por mais difícil que seja de ser contemplada.”

In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, SP, 2010.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

GIORGIO AGAMBEN 2

“A descoberta inaudita que Levi fez em Auschwitz diz respeito a um assunto refratário que qualquer identificação de responsabilidade: ele conseguiu isolar algo parecido com um novo elemento ético. Levi denomina-o de ‘zona cinzenta’. Ela é aquela da qual deriva a ‘longa cadeia de conjunção ente vítimas e algozes’, em que o oprimido se torna opressor e o carrasco, por sua vez,aparece como vítima. Trata-se de uma alquimia cinzenta, incessante, na qual o bem e o mal e, com eles, todos os metais da ética tradicional alcançam o seu ponto de fusão.

Trata-se, portanto, de uma zona de irresponsabilidade e de ‘impotentia judicandi’,que não se situa além do bem e do mal, mas está, por assim dizer, aquém dos mesmos dos mesmos. PR meio de um gesto simetricamente oposto ao de Nietzsche, Levi deslocou a ética para aquém do lugar em que estamos acostumados a pensá-la. E, sem que consigamos dizer por que motivo, percebemos que esse aquém é mais importante do que qualquer além, que o sub-homem deve interessar-nos bem mais do que o super-homem. Essa infame zona de irresponsabilidade é o nosso primeiro círculo do qual confissão alguma nos conseguirá arrancar e no qual, minuto após minuto, é debulhada a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos.”

In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, Boitempo Editorial, SP, 2010.

domingo, 27 de outubro de 2013

GRANDE LOU REED...

http://www.youtube.com/watch?v=4wNknGIKkoA


"Hey honey, take a walk on the wild side..."

CONVITE LEGAL: Parabéns, Sabrina.

Caros Amigos,

Gostaria de convidá-los para a minha próxima exposição:  "o  lugar de um outro qualquer", no MUnA em Uberlândia, a partir do dia 25 de outubro.

Fica a dica pra quem de repente for ou conhecer alguém lá... A expo vai até o dia 06 de dezembro!

Bjs!


GIORGIO AGAMBEN 1

      


“Não se trata aqui, obviamente, da dificuldade que experimentamos toda vez que procuramos comunicar a outros as nossas experiências mais íntimas. A dificuldade tem a ver com a própria estrutura do testemunho. Por um lado, o que aconteceu nos campos aparece aos sobreviventes como a única coisa verdadeira e, como tal, absolutamente inesquecível; por outro, tal verdade é, exatamente na mesma medida, inimaginável, ou seja, irredutível aos elementos reais que a constituem. Trata-se de fatos tão reais que , comparativamente, nada é mais verdadeiro; uma realidade que excede necessariamente os elementos factuais: é esta a aporia de Auschwitz. Assim está escrito nas folhinhas de Lewental: ‘a verdade inteira é muito mais trágica, ainda mais espantosa [...]’. Mais trágica, mais espantosa em relação a quê? [...] Entre o querer entender demais e demasiadamente rápido, por parte dos sacralizadores baratos, insistir nessa separação nos pareceu ser o único caminho praticável. Acrescente-se a tal dificuldade uma outra que tem a ver, especialmente, com quem está acostumado a ocupar-se de textos literários ou filosóficos. Muitos testemunhos – sejam dos carrascos, sejam das vítimas – provêm de pessoas comuns, assim como era gente ‘obscura’ a grande maioria dos que se encontravam nos campos. Uma das lições de Auschwitz consiste precisamente em entender que a mente de um homem comum é infinitamente mais difícil de compreender que a mente de Spinoza ou de Dante (é também nesse sentido que deve ser entendida a afirmação de Hannah Arendt , tantas vezes mal-interpretada, sobre ‘a banalidade do mal’.”

 In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, Boitempo Editorial, SP, 2010.