domingo, 27 de outubro de 2013

GIORGIO AGAMBEN 1

      


“Não se trata aqui, obviamente, da dificuldade que experimentamos toda vez que procuramos comunicar a outros as nossas experiências mais íntimas. A dificuldade tem a ver com a própria estrutura do testemunho. Por um lado, o que aconteceu nos campos aparece aos sobreviventes como a única coisa verdadeira e, como tal, absolutamente inesquecível; por outro, tal verdade é, exatamente na mesma medida, inimaginável, ou seja, irredutível aos elementos reais que a constituem. Trata-se de fatos tão reais que , comparativamente, nada é mais verdadeiro; uma realidade que excede necessariamente os elementos factuais: é esta a aporia de Auschwitz. Assim está escrito nas folhinhas de Lewental: ‘a verdade inteira é muito mais trágica, ainda mais espantosa [...]’. Mais trágica, mais espantosa em relação a quê? [...] Entre o querer entender demais e demasiadamente rápido, por parte dos sacralizadores baratos, insistir nessa separação nos pareceu ser o único caminho praticável. Acrescente-se a tal dificuldade uma outra que tem a ver, especialmente, com quem está acostumado a ocupar-se de textos literários ou filosóficos. Muitos testemunhos – sejam dos carrascos, sejam das vítimas – provêm de pessoas comuns, assim como era gente ‘obscura’ a grande maioria dos que se encontravam nos campos. Uma das lições de Auschwitz consiste precisamente em entender que a mente de um homem comum é infinitamente mais difícil de compreender que a mente de Spinoza ou de Dante (é também nesse sentido que deve ser entendida a afirmação de Hannah Arendt , tantas vezes mal-interpretada, sobre ‘a banalidade do mal’.”

 In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, Boitempo Editorial, SP, 2010.

 

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