segunda-feira, 28 de outubro de 2013

GIORGIO AGAMBEN 2

“A descoberta inaudita que Levi fez em Auschwitz diz respeito a um assunto refratário que qualquer identificação de responsabilidade: ele conseguiu isolar algo parecido com um novo elemento ético. Levi denomina-o de ‘zona cinzenta’. Ela é aquela da qual deriva a ‘longa cadeia de conjunção ente vítimas e algozes’, em que o oprimido se torna opressor e o carrasco, por sua vez,aparece como vítima. Trata-se de uma alquimia cinzenta, incessante, na qual o bem e o mal e, com eles, todos os metais da ética tradicional alcançam o seu ponto de fusão.

Trata-se, portanto, de uma zona de irresponsabilidade e de ‘impotentia judicandi’,que não se situa além do bem e do mal, mas está, por assim dizer, aquém dos mesmos dos mesmos. PR meio de um gesto simetricamente oposto ao de Nietzsche, Levi deslocou a ética para aquém do lugar em que estamos acostumados a pensá-la. E, sem que consigamos dizer por que motivo, percebemos que esse aquém é mais importante do que qualquer além, que o sub-homem deve interessar-nos bem mais do que o super-homem. Essa infame zona de irresponsabilidade é o nosso primeiro círculo do qual confissão alguma nos conseguirá arrancar e no qual, minuto após minuto, é debulhada a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos.”

In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, Boitempo Editorial, SP, 2010.

Nenhum comentário:

Postar um comentário