quinta-feira, 31 de outubro de 2013

GIORGIO AGAMBEN 5


“Que aquilo que define que o campo não seja simplesmente a negação da vida,que nem a morte nem o número de vítimas esgotam de modo algum o seu horror, que a dignidade ofendida não é a da vida, mas da morte; tudo isso era algo que já havia sido observado. Em entrevista concedida a Günter Gaus em 1964, Hannah Arendt descreveu com as seguintes palavras a sua reação no momento em que a verdade sobre os campos começou a ser conhecida em todos os seus detalhes:

Antes disso, dizíamos: está bem, temos inimigos. É perfeitamente natural. Por que não deveríamos ter inimigos? Mas isso era diferente. Era realmente como se tivesse se escancarado um abismo... Isso na deveria ter acontecido. Não me refiro apenas ao número das vítimas. Refiro-me ao método, à fabricação de cadáveres e a tudo mais. Não é necessário que entre em detalhes. Isso não devia acontecer. Ali aconteceu algo com que não nos podemos reconciliar. Ninguém de nós pode fazê-lo.

Parece que cada frase está tão carregada de sentido tão penoso a ponto de obrigar quem fala a recorrer a locuções que estão à metade do caminho entre o eufemismo e o inaudito. Especialmente a curiosa expressão, repetida em duas variações, ‘isso não devia acontecer’, traz um tom ressentido, pelo menos à primeira vista, que não deixa de surpreender nos lábios da autora do livro mais corajoso e desmistificador que se escreveu em nossos tempos sobre o problema do mal. A impressão acaba aumentando a partir das últimas palavras: “não nos podemos reconciliar com isso, ninguém de nós pode fazê-lo”. [...]

 Em todo caso, a expressão ‘fabricação de cadáveres’ implica que aqui já não se possa propriamente falar de morte, que não era morte aquela dos campos, mas algo infinitamente mais ultrajante que a morte. Em Auschwitz não se morria: produziam-se cadáveres. Cadáveres em morte, não-homens cujo falecimento foi rebaixado a produção em série. É precisamente a degradação da morte que constituiria, segundo uma possível e difundida interpretação, a ofensa específica de Auschwitz, o nome próprio do seu horror.”


In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, SP, 2010.

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