segunda-feira, 21 de outubro de 2013

IMRE KERTÉSZ 1



“Embora eu esteja encerrando minha fala, confesso com sinceridade que ainda não encontrei o equilíbrio apaziguador entre minha vida, minha obra e o Prêmio Nobel. Pois neste momento sinto uma profunda gratidão – gratidão pelo amor que me salvou e me mantém vivo. Porém, reconheçamos que nesta jornada difícil de ser seguida, nesta ‘carreira’, se é que posso dizer assim, existe alguma coisa instigante, alguma coisa absurda; alguma coisa que não pode ser pensada sem que sejamos tomados pela crença numa ordem sobrenatural, numa providência, numa justiça metafísica: em outras palavras, sem cair na armadilha do auto-engano, e, assim, atolar, deteriorar-se, perder as ligações profundas e torturantes com os milhões que pereceram e nunca viram a compaixão. Não é muito fácil ser uma exceção; mas, se fomos destinados a ser exceções, devemos fazer as pazes com a lei absurda do acaso que reina sobre nossa vida, lei que serve a poderes desumanos, os quais recorrem aos caprichos dos pelotões de execução, expondo-nos a tiranias monstruosas.”

In A língua exilada, Imre Kertész, Companhia das Letras, SP, 2004.

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