quinta-feira, 24 de outubro de 2013

IMRE KERTÉSZ 4



“Passou certo tempo, uma certa postura humana parece irrecuperável, como a idade, a juventude. Que postura era essa? O espanto do homem com a criação; a admiração embevecida ante a vida, a alma, a matéria que se decompõe – o corpo humano; desapareceu o espanto com  a existência, e, com ele – na realidade – o respeito pela vida. O assassínio, que ocupou o lugar dessa época mais antiga – não como um mau hábito, não como contravenção, como “episódio”, mas como modo de vida como postura “natural” assumida e praticada diante da vida e do semelhante -, o assassínio como perspectiva de vida é, portanto, uma transformação indiscutivelmente radical – fenômeno de uma época ou fenômeno do fim de uma época, tanto faz. Pode-se argumentar que a descoberta do genocídio não é novidade; porém, o genocídio persistente, conduzido ao longo de anos, de décadas, transformado em sistemática, ao lado da vida assim dita cotidiana, normal, com a educação das crianças, os passeios amorosos, os horários de consulta médica, as aspirações profissionais, os desejos civis, a melancolia do crepúsculo, o crescimento, os sucessos ou insucessos, tudo isso, e mais os costumes, os hábitos associados ao medo, o conformismo, os gestos de desistência, o tédio, são uma descoberta nova, a mais nova delas. E o que nela é novo é a aceitação. É possível que o desígnio terreno do homem seja exterminar a Terra, a vida. Nesse caso, entretanto, comportou-se como Sísifo: durante algum tempo escapou do desígnio, da tarefa,fugiu das garras da morte, e maravilhou-se daquilo que tinha de exterminar: a vida. Desse ponto de vista, toda produção e pensamentos superiores criados pelo homem existem graças  a essa relutância; a arte, a filosofia,as religiões resultam da hesitação, da imobilidade diante da tarefa real, o extermínio; essa hesitação explica a tristeza incurável, nostálgica, dos verdadeiramente grandes.” 

In A língua exilada, Imre Kertész, Companhia das Letras, SP, 2004.

 filósofo-cansado-século-vinte

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