sexta-feira, 25 de outubro de 2013

IMRE KERTÉSZ 5



“Talvez o mundo nunca tenha se visto ante uma necessidade tão grande de uma parada, de um descanso deliberado no sentido espiritual, como hoje em dia. Parada para avaliar a situação e reformular os valores – na medida em que ainda se dê algum valor à vida; e na realidade essa é a principal pergunta a fazer. Estou convencido de que a desvalorização da vida, a decadência existencial veloz, exterminadora, da nossa era é causada pelo profundo desespero cuja raiz se oculta nas experiências históricas destruidoras e no saber catártico que delas se origina. É como se o homem já não vivesse o próprio destino aqui na Terra, e com isso perdesse o direito sofrido de repetir com o rei Édipo: “A despeito de tudo, minha idade avançada e a grandeza da minha alma sussurram-me que tudo vai bem...”, ou como se também não lhe dissesse respeito a Escritura: “E morre Jó na boa velhice e realizado”. Ao contrario, enquanto causa sofrimento e dor imensos e incompreensíveis a si mesmo e a outros, o homem do nosso tempo imagina que encontrará o valor único e verdadeiramente indiscutível na vida livre de sofrimento. Porém, a vida livre de sofrimento também se libertou da realidade, de modo que podemos perguntar, com Hermann Broch: “Existe ainda realidade nessa vida distorcida?”Assim, em nossa época a alegria (para não mencionarmos a felicidade) e o sofrimento assumem as formas mais estéreis – exilados nos cenários dos extermínios em massa, nas salas de interrogatório das polícias políticas, nas películas dos filmes pornográficos sadomasoquistas. Por outro lado, há não muito tempo, considerava-se o cumprimento e o sofrimento do destino como a fonte mais profunda de sabedoria, sem o que nenhuma realização seria possível, nenhuma obra veria a luz.”

In A língua exilada, Imre Kertész, Companhia das Letras, SP, 2004.
 

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