domingo, 3 de novembro de 2013

GIORGIO AGABEN 8



 
“Poder-se-ia dizer, à primeira vista, que seja o homem – o sobrevivente – que dá testemunho do não-homem, do mulçumano. Se, porém, o sobrevivente testemunha pelo muçulmano – no sentido técnico de ‘por conta de’ ou ‘por delegação’ (“falamos nós em lugar deles, por delegação”), então, de algum modo, segundo o princípio jurídico pelo qual os atos do delegado são imputados ao delegante, é o muçulmano que dá testemunho. Contudo, isso significa que quem de fato dá testemunho no homem é o não-homem, ou seja, que o homem não é senão o mandatário do não-homem, aquele que lhe empresta a voz. Ou então, que não existe titular do testemunho; que falar, dar testemunho significa entrar em um movimento vertiginoso, em que algo vai a pique, se dessubjetiviza integralmente  e emudece, algo se subjetiviza e fala, sem ter – propriamente – nada a dizer (“falo de coisas [...]que eu mesmo não experimentei”). Algo no qual quem é sem palavra leva o falante a falar, e quem fala carrega em sua própria palavra a impossibilidade de falar, de modo que o mudo e o falante, o não-homem e o homem ingressam – no testemunho – em uma zona de indistinção na qual é impossível estabelecer a posição de sujeito, identificar a “substância sonhada” do eu e, com ela, a verdadeira testemunha.”

In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, Boitempo Editorial, 2010.

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