terça-feira, 5 de novembro de 2013

GIORGIO AGAMBEN 10



 
“E mais ainda: o ser vivo que se fez absolutamente presente a si mesmo no ato de enunciação, no ato de dizer eu, faz retroceder a um passado sem fundo as suas vivências, não podendo mais coincidir imediatamente com elas. A instância do discurso no puro presente separa irreparavelmente a presença das sensações e das vivências frente a si mesmas no exato momento em que as refere a um centro de imputação unitário. Quem usufruiu a presença especial que se efetiva na íntima consciência da voz enunciadora perde para sempre a intacta aderência ao Aberto, que Rilke vislumbrava no olhar do animal, voltando agora seus olhos para o interior, para o não-lugar da linguagem. Por isso, a subjetivação, o ato de se produzir a consciência na instância do discurso,frequentemente é um trauma de que os seres humanos custam a libertar-se; por isso, o frágil texto da consciência se desfia e cancela sem parar, mostrando à luz plena a separação sobre a qual foi construído, a constitutiva dessubjetivação de toda subjetivação. (não causa espanto que foi justamente de uma análise do significado do pronome eu em Husserl, que Derrida pôde extrair a sua ideia de um deferimento infinito, de uma separação originária – uma escritura – inscrita na pura presença da consciência a si mesma.)”

In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, Boitempo Editorial, SP, 2010.

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