sexta-feira, 1 de novembro de 2013

GIORGIO AGAMBEN 6

Giorgio Agamben

“Quem passou pelo campo – tendo afogado ou sobrevivido – suportou tudo o que podia suportar; inclusive o que não deveria ou quereria suportar. Esse ‘sofrer levado à potência mais extrema’, essa exaustão do possível, já não possui, porém, nada de humano. A potência humana confina com o inumano, o homem suporta também o não-homem. Disso nasce o mal-estar do sobrevivente, o ‘mal-estar incessante [...] que não tem nome’, no qual Levi reconhece a angústia atávica do Gênesis, ‘a angústia – inscrita em cada qual – do tòhu vavòhu [...] do qual o espírito do homem está ausente’. Isso quer dizer que o homem carrega em si o selo do inumano, que o seu espírito contém, no próprio centro dele, a punção do não-espírito, do caos não-humano que marca atrozmente o seu ser capaz de tudo. [...]

Essa oscilação flagra a impossibilidade da razão em identificar com certeza o crime específico de Auschwitz. A ele, de fato, são imputadas duas acusações aparentemente contraditórias: por um lado, de ter efetivado o triunfo incondicionado da morte contra a vida e, por outro, a degradação e a depreciação da morte. Ambas as acusações – assim como, talvez, toda acusação, que é sempre um gesto genuinamente jurídico – não conseguem esgotar o ultraje de Auschwitz e captá-lo em todo seu alcance. Como se nele houvesse algo parecido com uma cabeça de Górgona que não se pode – nem se quer – ver por preço algum algo tão inaudito que se trata de torná-lo compreensível remetendo-o às categorias ao mesmo tempo mais extremas e mais familiares: a vida e a morte, a dignidade e a indignidade. Entre elas, flutua, sem encontrar uma colocação definida, a verdadeira cifra de Auschwitz – o mulçumano, o ‘nervo do campo’, aquele que ‘ninguém pode ver’ e que inscreve em todo testemunho uma lacuna. Ele é realmente a larva que a nossa memória não consegue sepultar, de quem não nos podemos despedir e diante do qual somos obrigados a prestar contas. De fato, em um caso, ele se apresenta como o não-vivo, com o ser cuja vida não é realmente vida, no outro, como aquele cuja morte não pode ser chamada de morte, mas apenas fabricação de cadáveres. Por outras palavras, como a inscrição na vida de uma zona de morte e, na morte, de uma zona viva. Em ambos os casos – já que o homem assiste à destruição de seu vínculo privilegiado com o que o constitui como humano, a saber, como sacralidade da morte e da vida -, o que está sendo posto em jogo é a própria humanidade do homem. O mulçumano é o não-homem que se apresenta obstinadamente como homem, e o humano que é impossível dissociar do inumano.”

In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, SP, 2010.

Militares norte-americanos observando a pilha de corpos amontoados em um vagão no campo de concentração de Buchenwald. Esta fotografia foi tirada logo após a liberação do campo. Alemanha, 18 de abril de 1945.

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