sábado, 2 de novembro de 2013

GIORGIO AGAMBEN 7/ Emmanuel Levinas

 



“Em 1935, Emmanuel Levinas traçou um esboço exemplar a respeito da vergonha. Segundo o filósofo, a vergonha não deriva, como acontece na doutrina dos moralistas, da consciência de uma imperfeição ou de uma carência do nosso ser frente à qual tomamos distância. Pelo contrário, ela fundamenta-se na impossibilidade do nosso ser de dessolidarizar-se de si mesmo, na sua absoluta incapacidade de romper consigo próprio. Se, na nudez, sentimos vergonha é porque não podemos esconder o que gostaríamos de subtrair ao olhar, porque o impulso irrefreável de fugir de si mesmo encontra seu paralelo em uma impossibilidade, igualmente certa, de evadir-se. Assim como na necessidade corporal e na náusea – que Levinas associa à vergonha em um mesmo diagnóstico – fazemos a experiência da nossa da revoltante e, no entanto, não suprimível presença a nós mesmos, assim, no caso da vergonha, ficamos entregues a algo de que, de forma alguma, conseguimos desfazer-nos.

O que aparece na vergonha é,portanto, precisamente o fato de se estar pregado a si mesmo, a impossibilidade radical de fugirmos de nós para nos escondermos de nós mesmos, a presença irremissível do eu frente a si mesmo. A nudez é vergonhosa quando é o patentear-se [ La patenza ] do nosso ser, da sua intimidade última. E a nudez do nosso corpo não é a de algo material, antitético ao espírito, e sim a nudez do nosso ser total em toda a sua plenitude e solidez, da sua expressão mais brutal, de que não podemos deixar de dar-nos conta. O apito que Charlie Chaplin engole em Luzes da Ribalta faz com que apareça o escândalo da presença brutal do seu ser; é como se fosse um gravador que permite pôr a nu as manifestações discretas de uma presença que, de resto, o lendário traje de Charlot apenas dissimula... È a nossa intimidade, ou melhor, a nossa presença a nós mesmos que é vergonhosa. Ela não desvela o nosso nada, mas a totalidade da nossa existência... O que a vergonha descobre é o ser que se descobre.

Tentemos prosseguir a análise de Levinas. Envergonhar-se significa: ser entregue a um inassumível [inassumibile]. No entanto, este inasssumível não é algo exterior, mas provém da nossa própria intimidade; é aquilo que em nós existe de mais íntimo (por exemplo, a nossa própria vida fisiológica). O eu é, nesse caso, ultrapassado e superado pela sua própria passividade, pela sua sensibilidade mais própria; contudo, esse ser expropriado e dessubjetivado é também uma extrema e irredutível presença do eu a si mesmo. É como se nossa consciência desabasse e nos escapasse por todos os lados e, ao mesmo tempo, fosse convocada, por um decreto irrecusável, a assistir, sem remédio, ao próprio desmantelamento, ao fato de já não ser meu tudo o que me é absolutamente próprio. Na vergonha, o sujeito não tem outro conteúdo senão a própria dessubjetivação, convertendo-se em testemunha do próprio desconcerto, da própria perda de si como sujeito. Esse duplo movimento, de subjetivação e de dessubjetivação, é a vergonha.”

In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, Boitempo Editorial, SP, 2010.

 

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