segunda-feira, 4 de novembro de 2013

GIORGIO AGAMBEN 9

 


“Tudo isso também pode ser expresso dizendo que sujeito do testemunho é quem dá testemunho de uma dessubjetivação, conto que não se esqueça que “dar testemunho de uma dessubjetivação” só pode significar que não existe, em sentido próprio, um sujeito do testemunho (“repito, não somos nós [... ] as verdadeiras testemunhas”), que todo testemunho é um processo ou um campo de forças percorrido sem cessar por correntes de subjetivação e de dessubjetivação. (...)

Veja-se o ser vivo singular, o infante. O que acontece nele e para ele no momento em que diz eu, em que se torna falante? O eu, a subjetividade que ele alcança é – já o vimos – uma realidade puramente discursiva, que não remete nem a um conceito nem a um indivíduo real. Tal eu que , como unidade que transcende a totalidade múltipla das vivências, garante a permanência daquilo que denominamos consciência, não é mais que o surgimento, no ser, de uma propriedade exclusivamente lingüística. Conforme escreve Benveniste, “É na instância de discurso na qual eu designa o locutor que este se enuncia como ‘sujeito’. É, portanto verdade ao pé da letra que o fundamento da subjetividade está no exercício da língua”. Os linguistas analisaram as consequências que a introdução da subjetividade na linguagem causa na estrutura das línguas. Apesar disso, ainda falta analisar, em boa parte, as consequências da subjetivação sobre o indivíduo vivo. Graças a essa inaudita presença a si mesmo como eu, como locutor na instância de discurso que se produz no ser vivo algo semelhante a um centro unitário de imputação das vivências e dos atos, um ponto firme subtraído ao oceano em movimento das sensações e dos estados psíquicos, a que  eles podem referir-se integralmente como se fosse ao seu titular. E Benveniste mostrou que a temporalidade humana justamente é gerada por meio da presença a si e ao mundo possibilitada pelo ato de enunciação, e que, em geral, o homem só dispõe de um modo de viver o ‘’agora’, a saber, realizando-o por meio da inserção do discurso no mundo, dizendo eu, agora. Precisamente por isso, porém, porque não há outra realidade senão aquela do discurso, o ‘agora’ – conforme prova qualquer tentativa de aferrar o instante presente – é marcado por uma negatividade irredutível; precisamente porque a consciência não tem outra consistência senão a de linguagem, tudo que a filosofia e a psicologia acreditaram descobrir nada mais é que a sombra da língua, uma ‘substância sonhada’. A subjetividade, a consciência em que a nossa cultura pensou ter encontrado o seu mais sólido fundamento, repousa sobre o que há de mais frágil e precário no mundo: o acontecimento da palavra. Mas esse instável fundamento reafirma-se – e volta a fraquejar – toda vez que colocamos em funcionamento a língua para falar, tanto na conversa mais frívola, quanto na palavra dada uma vez por todas a si e aos outros".


In O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben, Boitempo Editorial, 2010.

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