quarta-feira, 27 de novembro de 2013

LIVROS 7





“A busca do livro perdido fica mais explícita ainda com metáfora do desejo imperioso de leitura por parte do leitor em outro romance cult que toma emprestada à literatura policial parte de sua estrutura narrativa: Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino. Ao longo da trama em que se desdobra essa estrutura – a perseguição de um livro por parte de um personagem identificado apenas com o Leitor, que busca continuar sua leitura interrompida e que acaba por descobrir uma conspiração em curso para acabar com o sentido de todos os livros, embaralhando leituras e autores, criando falsificações e simulacros de livros verdadeiros, etc. – se parodiam diversa formas de escrita do romance. São proto-romances, projetos de livros que mal se esboçam e já têm sua leitura interrompida pro alguma situação decorrente da conspiração em jogo, obrigando o Leitor a uma busca incessante do livro desejado. Como observou Susan Sontag a respeito da obra, a relação que se estabelece entre leitor e livro é uma relação de desejo. O romanesco instaura aqui um espaço de prazer e liberdade do qual se nutre o Leitor, mas que lhe sucessivamente negado (à maneira do coitus interruptus) na medida em que  sua leitura não consegue chegar ao fim. Este ‘duplo princípio do prazer’ se confirma num dos capítulos finais do livro de Calvino, quando o Leitor participa de uma discussão sobre a leitura de livros numa biblioteca. Um dos participantes lhe faz a seguinte observação: ’Acredita que toda leitura deva ter um princípio e um fim: antigamente, a narrativa só tinha duas maneiras de terminar: uma vez passadas as suas provações, o herói e a heroína se casavam ou morriam. O sentido último a que remetem todas as narrativas comporta duas faces: o que   há de continuidade na vida, o que há de inevitável na morte’. Espantado, o protagonista chega á conclusão  deve desposar a heroína do romance que se encerra com a cena do Leitor e da Leitora partilhando, num grande leito conjugal, suas leituras paralelas”. 

In O Personagem Livro, Marco Antônio de Almeida, 2001.
 Set Palavras

Nenhum comentário:

Postar um comentário