sexta-feira, 29 de novembro de 2013

LIVROS 9




“É com a pena que se fazem anotações à margem do texto. Essa marginália é a prova imediata da resposta do leitor ao que ele lê, do diálogo que se dá entre livro e leitor. É o risco do bordado que resultará dessa interação, desse discurso interior – laudatório, irônico, negativo, argumentativo – que acompanha o processo da leitura. A marginália pode, em extensão e densidade de organização, vir a rivalizar com o próprio texto, preenchendo não apenas as margens laterais propriamente ditas, como também os espaços livres no topo e na base da página, até mesmo nos espaços entre as linhas. Nas nossas grandes bibliotecas encontram-se ‘contrabibliotecas’ constituídas pela marginália e por outras decorrentes daquelas que gerações sucessivas de verdadeiros leitores estenografaram, codificaram, rabiscaram ou assinalaram com floreios elaborados, sublinhando ou circundando as linhas do texto. Muitas vezes essas anotações constituem as articulações principais de uma doutrina estética, os elos da história intelectual, ou podem mesmo constituir um ato de criação da maior importância. Há simples anotações feitas nas margens dos textos que têm natureza bem diversa da marginália. Esta é um discurso impulsivo, que frequentemente discute com o texto, impaciente. As simples anotações costumam ser numeradas e tendem a ter caráter mais formal e colaborador. No mais das vezes aparecem na margem inferior das páginas. Propõem-se a elucidar esse ou aquele ponto texto, citar fontes paralelas ou subsequentes. Enquanto o escritor de marginália é um rival incipiente do texto que lê, o simples anotador é alguém que se propõe a servir-lhe.”

In O Leitor Incomum, George Steiner, in Nenhuma Paixão Desperdiçada, RJ, Record, 2001.

 “Escrever é sempre esconder algo de modo que mais tarde seja descoberto.”
[Se Numa Noite de Inverno Um Viajante, de Italo Calvino]

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