quarta-feira, 27 de novembro de 2013

REVISITAÇÕES LITERÁRIAS:



 
“- Sejamos sensatos. Um homem tem de trabalhar, Larry. É uma questão de amor próprio. Vivemos num país novo e é dever de todo homem tomar parte nas atividades desse país. Ainda no outro dia, Henry Maturin estava dizendo que nos encontramos no início de uma era que fará com que as realizações passadas pareçam insignificantes. Disse que não vê limites para o nosso progresso, e está convencido de que lá para 1930 seremos o país maior e mais rico do mundo. Você não acha isso formidável?
- Formidável.
- Nunca os moços tiveram igual oportunidade. Pensei que você fosse sentir-se orgulhoso de participar do trabalho que temos à nossa frente. É uma maravilhosa aventura.
Ele riu ligeiramente.
- Creio que você tem razão. As Armour e Swift produzirão melhores conservas e em maior escala, as McCornick farão melhores foices e em maior quantidade, Henry Ford porá no mercado maior número de melhores carros. E todo mundo ficará mais rico e ainda mais rico.
- E por que não?
- Sim, como diz você, por que não? Mas acontece que o dinheiro não me interessa.
Isabel riu nervosamente.
- Meu bem, não diga tolices. Ninguém pode viver sem dinheiro.
- Tenho um pouquinho. É por isso que posso fazer o que quero.
- Vadiar?
- Sim – respondeu ele sorrindo.
- Você está dificultando tanto as coisas para mim, Larry – suspirou Isabel.
- Sinto muito. Eu não o faria, se dependesse da minha vontade.
- Depende da sua vontade.
Ele sacudiu a cabeça. Ficou quieto durante alguns instantes, imerso em seus pensamentos. Quando finalmente quebrou o silêncio, foi para algo que a sobressaltou.
- Os mortos parecem tão irremediavelmente mortos quando mortos.
- Que quer dizer exatamente com isso? – perguntou ela, perturbada.
- Justamente isso. – Ele sorriu, meio encabulado.
- A gente tem muito tempo para pensar, quando está voando, sozinho. Fica-se com ideias esquisitas.
- Que espécie de ideias?
- Vagas – respondeu ele sorrindo – Incoerentes. Confusas.
Isabel refletiu durante alguns instantes.
- Não acha que, se você começasse a trabalhar, elas se coordenariam e você ficaria sabendo em que terreno está pisando?
- A ideia me ocorreu. Pensei em ir trabalhar numa carpintaria ou em alguma garagem.
- Oh! Larry, todo o mundo pensaria que você está maluco.
- E isso teria importância?”

In O fio da navalha, W. Somerset Maugham, RioGráfica, RJ, 1986.

 
 
 

 

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