sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

RELENDO CORTÁZAR ou DA IMPORTÂNCIA DOS FRAGMENTOS


File:Lienzo de Cuauhquecholan, fragmento.jpg 

““A incomunicabilidade total”, pensou Oliveira. “O pior não é tanto estarmos sós, pois isso já é conhecido e nem tem solução. Estar só, é, definitivamente, estar só dentro de um certo plano, no qual outras solidões poderiam comunicar-se conosco se a coisa fosse possível. Todavia, qualquer conflito, um acidente de rua ou uma declaração de guerra, provoca o brutal cruzamento de planos diferentes, e um homem, que talvez seja uma eminência do sânscrito ou da física quântica, se converte num pépère para o enfermeiro que o assiste num acidente. Edgar Poe metido numa ambulância, Verlaine nas mãos de um médico qualquer, nerval e Artaud diante dos psiquiatras. Que podia saber de Keats o galeno italiano que o sangrava e o matava de fome? Se os homens como esse guardam o silêncio, como é provável, os outros triunfam cegamente, sem qualquer má intenção, é claro, sem saber que aquele operado, aquele tuberculoso, aquele acidentado despido sobre a cama se encontra duplamente só, rodeado por seres que se movem como por trás de um vidro, num outro tempo...” (...)
Amor, cerimônia ontologizante, doadora de ser. E por isso lhe ocorria agora aquilo que, na verdade, deveria ter lhe ocorrido logo no início: se alguém não tem domínio sobre si, jamais poderia ter alcançado a singularidade. E, afinal, quem é que se dominava de verdade? Quem é que tinha a perfeita consciência de si, da solidão absoluta que significa nem sequer contar com a própria companhia, que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou, ainda, no matrimônio para estar, pelo menos, só entre os demais: assim, paradoxalmente, o cúmulo da solidão conduzia ao cúmulo do gregarismo, à grande solidão das companhias alheias, ao homem só na sala de espelhos e dos ecos. Todavia, pessoas como ele e tantas outras, que aceitavam a si mesmas ou que se rejeitavam, mas conhecendo-se de perto, caíam sempre no pior paradoxo; estar talvez à beira da singularidade e não poder alcançá-la. A verdadeira singularidade feita de delicados contatos, de maravilhosos ajustes com o mundo, não podia ser cumprida por um só lado: a mão estendida deveria receber outra mão, vinda de fora, vinda do outro.”"

In O JOGO DA AMARELINHA, Julio Cortázar, Civilização Brasileira, RJ, 2013.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

MÁRIO QUINTANA PARA CAROLINA:



 
PROMESSAS MATRIMONIAIS – MÁRIO QUINTANA

Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre: “Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?”
Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões.
Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
Promete saber ser amigo (a) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou uma pessoa menos romântica?
 Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
Promete sentir prazer de estar ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e, portanto, a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
Promete se deixar a conhecer?
Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará  a rotina como desculpa para sua falta de humor?
Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?
Sendo assim, declaro-os muito mais marido e mulher: declaro-os maduros.

 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A hora (não se recorda?) era demasiado certa e humana.

 
 
 
(...) A sua sensibilidade dói-me.  Por certo que outrora nos encontramos e entre sombras de alamedas dissemos um ao outro em segredo nosso comum horror à Realidade. Lembra-se? Tinham-nos tirados os brinquedos, porque nós teimávamos que aos soldados de chumbo e os barcos de latão tinham uma realidade mais preciosa e esplêndida que os soldados-gente e os barcos reais. Nós andamos longas horas pela quinta. Como tinham nos tirado as coisas onde púnhamos os nossos sonhos, pusemo-nos a falar delas para as ficarmos tendo outra vez. E assim tornaram a nós, em sua plena e esplêndida realidade – que paga de seda para os nossos sacrifícios? – os soldados de chumbo e os barcos de latão; e através das nossas almas continuaram sendo, para que nós brincássemos com eles. A hora (não se recorda?) era demasiado certa e humana. As flores tinham a sua cor e seu perfume de soslaio para a nossa atenção. O espaço todo estava levemente inclinado, como se Deus, por uma astúcia de brincadeira, o tivesse levantado do lado das almas; e nós sofríamos a instabilidade do jogo divino como crianças que apreciam as brincadeiras que lhe fazem, porque sabem que são mostras de afeição. Foram belas estas horas que vivemos juntos. Nunca tornaremos a ter estas horas, nem esse jardim, nem os nossos soldados e os nossos barcos. Ficou tudo embrulhado no papel de seda da recordação de tudo aquilo. Os soldados, pobres deles, furam quase o papel com as espingardas eternamente ao ombro. As proas dos barcos estão sempre para romper o invólucro. E sem dúvida que todo o sentido do nosso exílio é este – o terem-nos embrulhado nossos brinquedos de antes da Vida, terem-nos posto na prateleira que está exatamente fora do nosso gesto e do nosso jeito. Haverá uma justiça para as crianças que nós somos? Ser-nos-ão restituídos por mãos que cheguem aonde não chegamos os nossos companheiros de sonhos, os soldados e os barcos? Sim, e mesmo nós próprios, porque nós não éramos isto que somos... éramos duma artificialidade mais divina... (pag. 272)


In Fernando Pessoa, Toda Prosa, Editora José Aguilar, RJ, 1974. 

 

LEMBRETE: