segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

ESTUDOS FUNDAMENTAIS:




AS CIDADES E OS OLHOS 1

Os antigos construíram Valdrada à beira de um lago com casas repletas de varandas sobrepostas e com ruas suspensas sobre a água desembocando em parapeitos balaustrados. Deste modo, o viajante ao chegar depara-se com duas cidades: uma perpendicular sobre o lago e a outra refletida de cabeça para baixo. Nada existe e nada acontece na primeira Valdrada sem que se repita na segunda, porque a cidade foi construída de tal modo que cada um de seus pontos fosse refletido por seu espelho, e a Valdrada na água contém não somente todas as acanaladuras e relevos das fachadas que se elevam sobre o lago, mas também o interior das salas com os tetos e os pavimentos, a perspectiva dos corredores, os espelhos dos armários.
Os habitantes de Valdrada sabem que todos os seus atos são simultaneamente aquele ato e a sua imagem especular, que possui a especial dignidade das imagens, e essa consciência impede-os de abandonar-se ao acaso e ao esquecimento mesmo que por único instante. Quando os amantes com os corpos nus rolam pele contra pele à procura da posição mais prazerosa ou quando os assassinos enfiam a faca nas veias escuras do pescoço e quanto mais a lâmina desliza entre os tendões mais o sangue escorre, o que importa não é tanto o acasalamento ou ao degolamento mas o acasalamento e o degolamento de suas imagens límpidas e frias no espelho.
Às vezes o espelho aumenta o valor das coisas, às vezes anula. Nem tudo o que parece valer acima do espelho resiste a si próprio refletido no espelho. As duas cidades gêmeas não são iguais, porque nada do que acontece em Valdrada é simétrico: para cada face ou gesto, há uma face ou gesto correspondente invertido ponto por ponto no espelho. As duas Valdradas vivem uma para a outra, olhando nos olhos continuamente, mas sem se amar.

In As cidades Invisíveis, Ítalo Calvino, Companhia das Letras, SP, 2002.

 Italo Calvino reading his novel ‘Mr Palomar’, 1984 -nd [publ. in Panorama, 7 Jan. 1984]

It is only after you have come to know the surface of things that you can venture to seek what is underneath. But the surface of things is inexhaustible.— Italo Calvino, in Mr Palomar (1983)

from panorama /photo Mondadori portfolio

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