quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

CONTINUANDO:



 Pina Bausch

"AS emoções mais intensas suscitam o som da voz, raramente a linguagem: além ou aquém desta, murmúrio e grito, imediatamente implantados nos dinamismos elementares. Grito natal, grito de crianças em seus jogos ou aquele provocado por uma perda irreparável, uma felicidade indizível, um grito de guerra que, em toda a sua força, aspira a fazer-se canto: voz plena, negação de toda redundância, explosão do ser em direção à origem perdida – ao tempo da voz sem palavra.

Na voz a palavra se enuncia como lembrança, memória em fato de um contato inicial, na aurora de toda vida e cuja marca permanece em nós um tanto apagada, como a figura de uma promessa. Surgindo desta falhas, ‘entre a transparência do abismo e o fosco das palavras’, como escreve ainda D. Vasse, a voz deixa ouvir uma ‘ressonância ilimitada no curso de si mesma’. O que ela nos libera, anterior ou interiormente à palavra que veicula, é uma questão sobre os começos; sobre o instante sem duração em que os sexos, as gerações, o amor e o ódio foram um só.

Cada sílaba é sopro, ritmado pelo batimento do sangue; e a energia deste sopro, com o otimismo da matéria, converte a questão em anúncio, a memória em profecia, dissimula as marcas do que se perdeu e que afeta irremediavelmente a linguagem e o tempo. Por isso a voz é palavra sem palavras, depurada, fio vocal que fragilmente nos liga ao Único. É o que os primeiros teólogos da linguagem, no século XVI, chamaram de verbo... a ‘voz fenomenológica de Husserl, aquém do ‘corpo da voz’; a voz que é consciência; que será habitada pelas palavras, mas que verdadeiramente não fala nem pensa; que simplesmente trabalha ‘por nada dizer’, petrificando fonemas, e para quem o discurso pronunciado tem lugar quando lhe toca a razão de ser.

É assim que o idioma puramente oral, que foi o das sociedades arcaicas e de nossa infância, marca definitivamente nosso comportamento linguístico, não apenas mantendo, até em nosso universo tecnológico e entre os adultos, esta ‘glossolalia disseminada em fulgurações verbais’ de que fala M. de Ceteau, mas em razão de uma reminiscência corporal profunda, subjacente a qualquer intenção de linguagem. Produzindo desejo, ao mesmo tempo que é produzido por ele, o som vocal sempre fabrica o discurso, sem que uma intenção prévia ou um conteúdo o tenham programado de modo seguro. O som vocal divaga... a menos que, falsa oralidade, apenas verbaliza uma escrita."

In Introdução a poesia oral, Paul Zumthor, Editora UFMG, Belo Horizonte, 2010.


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