sábado, 15 de fevereiro de 2014

DICA:

A Fala 
“Ora, a voz é querer dizer e vontade de existência, lugar de uma ausência que, nela, se transforma em presença; ela modula os influxos cósmicos que nos atravessam e capta seus sinais: ressonância infinita que faz cantar toda matéria... como o atestam tantas lendas sobre plantas e pedras enfeitiçadas que, um dia, foram dóceis. (...)

A voz jaz no silêncio do corpo como o corpo em sua matriz. Mas, ao contrário do corpo, ela retorna a cada instante, abolindo-se como palavra e como som. Ao falar, ressoa em sua concha o eco deste deserto antes da ruptura, onde, em surdina, estão a vida e a paz, a morte e a loucura. O sopro da voz é criador. Seu nome é espírito: o hebraico rouah; o grego pneuma,mas também psiché; o latim animus,mas também certos termos bantos. Na Bíblia, o sopro de Javé cria o universo como engendra Cristo. Identifica-se com a fumaça do sacrifício. Estas analogias se mantêm na imagística esotérica de Idade média. L. Tristani detectou a existência, na história individual, de um estado erógeno respiratório, independente do estágio oral da psicanálise clássica: donde o enraizamento libidinal específico, sobre o qual se vem articular,num segundo tempo a erogeneidade oral fônica da palavra.”

In Introdução a poesia oral, Paul Zumthor, Editora UFMG, Belo Horizonte, 2010.

 

 

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