quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

E mais:




“Indefinível, senão em termos de relação de afastamento, articulação entre sujeito e objeto, entre Um e o Outro, a voz permanece inobjetivável, enigmática, não especular. Ela interpela o sujeito, o constitui e nele imprime a cifra de alteridade. Para aquele que produz o som, ela rompe uma clausura, libera de um limite que por aí revela, instauradora de uma ordem própria: desde que é vocalizado, todo objeto ganha para um sujeito, ao menos parcialmente, estatuto de símbolo. O ouvinte escuta, no silêncio de si mesmo, esta voz que vem de outra parte, ele a deixa ressoar em ondas, recolhe suas modificações, toda ‘argumentação’ suspensa. Esta atenção se torna, no tempo de uma escuta, seu lugar, fora da língua, fora do corpo.
Jogo, ritmo vocálico anterior à instauração de um espaço e de um tempo mensuráveis, e que só é ‘sentido’ na media em que esta palavra designa direção e processo: a voz se encontra simbolicamente ‘colocada’ no indivíduo desde o nascimento, signifcando (por oposição, segundo D. Vasse, ao fechamento do umbigo) abertura e saída. Mais tarde, entrada em sua conjunção histórica, a criança assimilará a percepção auditiva ao calor e à liberdade anunciados pela voz materna – ou à austeridade protetora da lei, significada pela voz do pai. Experiência equívoca: à imagem em que  pesa  a presença do significado materno se opõe o iconoclasma da ordem e da razão, mas o equívoco vem de mais longe: no útero a criança já se banhava na Palavra viva, percebia as vozes, e como se diz, melhor os graves do que os agudos: vantagem acústica a favor do pai, mas a voz materna se ouvia no íntimo contato dos corpos, calor comum, sensações musculares apaziguadoras. Assim se esboçavam os ritmos da palavra futura, numa comunicação feita de afetividade modulada, de uma música uterina que, reproduzida artificialmente ao lado de um recém-nascido, provoca imediatamente o sono e, ao lado de uma autista (na terapêutica de A. Tomatis), deflagra uma regressão salvadora.
À medida que se afaste o doce ‘não lugar’ pré-natal e que tome consistência a sensação de um corpo-instrumento, a voz, por sua vez, se sujeitará à linguagem, em visa de uma outra liberdade. O simbólico vai invadir o imaginário. Pelo menos, subsiste a memória de um engodo fundamental, a marca de um antes, puro efeito de ausência sensorial, que cada grito, cada palavra pronunciada parece ilusoriamente poder preencher. Tocamos aqui, como penso, nas nascentes de toda poesia oral. “(...)

 In Introdução a poesia oral, Paul Zumthor, Editora UFMG, Belo Horizonte, 2010.
 

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