domingo, 23 de fevereiro de 2014

SEMANA BECKETT 2



 

“Caminho em um campo, com árvore, à tardinha.     
ESTRAGON, sentado no chão, tenta tirar o sapato com ambas as mãos. Para e, esgotado, descansa ofegante; recomeça. Entra VLADIMIR.   
ESTRAGON. (desistindo outra vez) - Não há nada a fazer. 
VLADIMIR. (caminhando devagar e rígido) - Começo a acreditar. (Para) Durante muito tempo resisti a acreditar, dizendo “VLADIMIR, seja razoável; ainda não tentou tudo.” E recomeçava. (concentra-se, lembra. A ESTRAGON): Assim outra vez aí? 
ESTRAGON.  - Parece?  
VLADIMIR.  - Me alegra te reencontrar. Acreditava que não ia te ver novamente. 
ESTRAGON.  - Nem eu. 
VLADIMIR. – Vamos comemorar? (Pensa) Me dá um abraço. (Estende a mão a ESTRAGON) 
ESTRAGON. (Irritado) – Depois, depois.
 (SILÊNCIO) 
VLADIMIR. (aborrecido e frio) – Pode-se saber onde passou a noite? 
ESTRAGON.  - Na sarjeta. 
VLADIMIR.  (Surpreso) - Onde? 
ESTRAGON. (Imóvel) - Por aí. 
VLADIMIR.  - E não te incomodaram? 
ESTRAGON. – Mais ou menos. 
VLADIMIR.  - Os de sempre? 
ESTRAGON. - Os de sempre? Não sei.      (SILÊNCIO) 
VLADIMIR. - Quando penso..., sempre me pergunto o que teria sido de você... Sem mim... (decidido) Sem dúvida, você seria agora um punhado de ossos. 
ESTRAGON. - (magoado) E que mais? 
VLADIMIR.(aniquilado) - É muito para um homem sozinho. (para; depois, fica animado) Por outro lado, por que desanimar agora? É o que eu me pergunto. Seria necessário pensar uma eternidade...
ESTRAGON. – Chega! Me ajude a tirar esta porcaria.
VLADIMIR. – Devíamos ter sido os primeiros a nos jogar juntos da Torre Eiffel. Agora já é tarde. Nem nos deixariam subir. (ESTRAGON volta para o sapato) - O que você está fazendo? 
ESTRAGON. – Tirando o sapato. Nunca viu? 
VLADIMIR. - Faz tempo que eu digo que é necessário descalçar todo dia. Não me escuta...
ESTRAGON. -(desanimado) - Ajuda! 
VLADIMIR. – Está se sentindo mal? 
ESTRAGON. - Mal! Pergunta se estou me sentindo mal!
VLADIMIR. (exaltado) – Você é o único que sofre! Eu não importo. Entretanto, eu queria te ver no meu lugar.
ESTRAGON. – Sentiu mal? 
VLADIMIR. - Mal!  Pergunta se me senti mal! 
ESTRAGON. -(apontando com o dedo) - Isso não é uma razão para que não abotoe... 
VLADIMIR. -(Inclinando) - É verdade. (abotoando-se) Não se deve descuidar dos pequenos detalhes. 
ESTRAGON. - O que quer que eu diga? Deixa sempre para a última hora. 
VLADIMIR. (divagando) - A última hora... (pensa) Vai demorar, mas vai valer a pena. Quem dizia isto? 
ESTRAGON. – Quer me ajudar? 
VLADIMIR. - Às vezes, digo que, apesar de tudo, vai chegar. Então, tudo me parece estranho. (tira o chapéu, examina, acaricia, sacode e volta a colocá-lo) Como direi? Aliviado e, ao mesmo tempo..., (pensa) espantado. (exaltado) Espantado! (tira o chapéu outra vez e o examina) Era só o que faltava! (sacode, examina-o novamente e volta colocá-lo) Assim que... 
ESTRAGON. - O que? (com esforço, consegue tirar o sapato. Olha dentro, enfia a mão, sacode o sapato, procura algo que possa ter caído, não acha, enfia de novo a mão no sapato e divaga): Nada. 
VLADIMIR. - Deixe ver. 
ESTRAGON. - Não há nada pra ver. 
VLADIMIR. - Trata de calçar.
ESTRAGON. - (examina seu pé.) Vou deixar arejar um pouco. 
VLADIMIR. - Eis um homem que culpa o sapato quando a culpa é do pé. (tira o chapéu, olha lá dentro, passa a mão, sacode-o com força, sopra lá dentro e volta a colocá-lo.) Isto começa a ser inquietante...
(Silêncio. ESTRAGON balança o pé, separa os dedos, relaxa): Um dos ladrões se salvou. (Pausa) É razoável. (Pausa) Gogo...
ESTRAGON. - O que? 
VLADIMIR.  - E se nos arrependêssemos? 
ESTRAGON. - De que? 
VLADIMIR.  - Pois... (vacilando) Não é preciso entrar em detalhes. 
ESTRAGON. - De ter nascido?”

(versão livre e pessoal)

 

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