segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

SEMANA BECKETT 3

 



“Eram de fato dois quartos, separados por uma cozinha, ela não tinha mentido. Disse-me que eu devia ir buscar minhas coisas. Expliquei-lhe que eu não tinha coisas. Estávamos na parte de cima de uma velha casa e das janelas podia-se avistar a montanha, quem quisesse. Ela acendeu uma lamparina a querosene. Você não tem eletricidade?, disse eu. Não, disse ela, mas tenho água corrente e gás. Puxa,eu disse, você tem gás. Ela começou a se despir. Quando não sabem mais o que fazer, elas se despem, e é decerto o melhor que têm a fazer. Ela tirou tudo com uma lentidão capaz de irritar um elefante, exceto as meias, destinadas sem dúvida a elevar minha excitação ao auge. Foi então que vi que ela era vesga. Não era, felizmente, a primeira vez que eu via uma mulher nua, pude então ficar ali, sabia que ela não explodiria. Pedi para ver o outro quarto, pois ainda não o tinha visto. Se já tivesse visto diria que queria vê-lo de novo. Você não vai se despir?, disse ela. Oh, sabe, eu disse, raramente me dispo. Era verdade, eu nunca fui do tipo que se despe a torto e a direito. Geralmente tirava os sapatos quando me deitava, isto é,quando me compunha (compunha!) para dormir e depois as roupas externas conforme a temperatura.”

In Primeiro Amor, Samuel Beckett, Cosac&Naify, SP, 2004.

 http://estudos.gospelmais.com.br/files/2013/09/espera-no-senhor.jpg

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