terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

SEMANA BECKETT 4:

 (Divulgação) 



“O ponto crucial da concepção do mundo de Beckett reside aí, na diferença entre o pessimismo fácil, que tem por limite a insensibilidade do ceticismo, e aquele que alcançamos a duras penas e que procura aproximar-se do homem na sua miséria mais nua. O primeiro provém do fato de que nada tem realmente valor, e é também esse o seu término. O segundo alicerça-se numa concepção completamente oposta. Pois o que não tem valor não pode jamais degradar-se. A prova da degradação do homem – e nós fomos testemunhas disso como talvez nenhuma geração precedente o tenha sido – não tem lugar, se negamos ao homem o seu valor. Mas quanto mais a prova faz sofrer, mais profundo é o sentimento do verdadeiro valor do homem. De lá provém a purificação interior, a força fonte de vida apesar de tudo, que se desprende do negro pessimismo de Beckett. Ela encerra um amor pelo homem tanto mais indulgente porque atingiu as profundezas da repulsão, um desespero que deve chegar ao último limite do sofrimento para descobrir que esse limite se dissipa quando a compaixão desaparece. Desse estado vizinho à destruição, a obra de Samuel Beckett se ergue como um miserere de toda a humanidade e nas suas soturnas notas elegíacas ressoam a libertação dos tormentos e a consolação das almas naufragadas.”

(fragmento do discurso de recepção da Academia Sueca por ocasião da entrega do Nobel de Literatura em 1969, pronunciado por Karl Ragnar Gierow, tradução de Cora Ronai Vieira, in Malone Morre e Dias Felizes, Samuel Beckett, Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, Editora Opera Mundi, RJ,1973)

Nenhum comentário:

Postar um comentário