quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

SEMANA BECKETT 6:




“Dentro em breve estarei enfim completamente morto apesar de tudo. Talvez no mês que vem. Seria então o mês de abril ou de maio. Pois o ano avançou pouco, mil pequenos indícios me confirmam isso. Pode ser que me engane e que eu vá além de São João ou até do Quatorze de Julho, festa da liberdade. Que é que estou dizendo, sou capaz de ir até a Transfiguração, do jeito que me conheço, ou até a Assunção. Mas não creio, não creio que me engane quando digo que essas alegrias virão sem mim, este ano. Tenho este sentimento, já há alguns dias, e acredito nele. Mas em que ele difere dos que me enganam desde que existo, não, é um gênero de pergunta que não pega mais comigo, não tenho mais necessidade de pitoresco. Morreria hoje mesmo, se quisesse, bastando dar um empurrãozinho de nada, se eu pudesse querer, se eu pudesse dar um empurrãozinho. Mas o melhor mesmo é me deixar morrer, sem precipitar as coisas. Deve haver nisso tudo alguma de mudado. Não posse mais pesar na balança, nem de um lado nem de outro. Serei neutro e inerte. Isso será fácil para mim. O que importa somente é prestar atenção aos sobressaltos. Aliás eu me sobressalto menos desde que estou...”

In Malone Morre e Dias Felizes, Samuel Beckett, Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, Editora Opera Mundi, RJ,1973

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