segunda-feira, 31 de março de 2014

NOSSA SUBSTÂNCIA É MEMÓRIA 3: e, daí, aprendizado.




Os oficiais-generais que ordenaram, estimularam e defenderam a tortura levaram as Forças Armadas brasileiras ao maior desastre de sua história. A tortura tronou-se matéria de ensino e prática rotineira dentro da máquina militar de repressão política da ditadura por conta de uma antiga associação de dois conceitos. O primeiro, genérico, relaciona-se com a concepção absolutista da segurança da sociedade. Vindo da Roma antiga (A segurança pública é a lei suprema), ele desemboca nos porões: “Contra a Pátria não há direitos”, informava uma placa pendurada no saguão dos elevadores da polícia paulista. Sua lógica é elementar: o país está acima de tudo, portanto tudo vale contra aqueles que o ameaçam. O segundo conceito associa-se à funcionalidade do suplício. A retórica dos vencedores sugere uma equação simples: havendo terroristas, os militares entram em cena, o pau canta, os presos falam, e o terrorismo acaba. Como se vangloriou o general Emilio Garrastazu Médici, mais de dez anos depois de ter deixado o poder: “Era uma guerra, depois da qual foi possível devolver a paz ao Brasil. Eu acabei com o terrorismo neste país. Se não aceitássemos a guerra, se não agíssemos drasticamente, até hoje teríamos o terrorismo”. 


In A Ditadura Escancarada, Elio Gaspari, Companhia das Letras, SP, 2003.

 

domingo, 30 de março de 2014

NOSSA SUBSTÂNCIA É MEMÓRIA 2: e, daí, aprendizado.

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“Pela primeira vez em sua vida política João Goulart tomava a ofensiva no meio de uma crise militar. Tinha 45 anos e fora batido duas vezes por pronunciamentos militares. Em fevereiro de 1954 um manifesto de coronéis tirara-o do Ministério do Trabalho. Em1961, quando Jânio Quadros renunciou, era o vice presidente e viu-se vetado pelos ministros militares. Só assumira, depois de uma crise em que o país esteve perto da guerra civil, porque aceitara uma fórmula pela qual se fabricou um humilhante regime parlamentarista cuja essência residia em permitir que ocupasse a Presidência desde que não lhe fosse entregue o poder”.

In A Ditadora Envergonhada, Elio Gaspari Companhia das Letras, SP, 2003. 

sábado, 29 de março de 2014

NOSSA SUBSTÂNCIA É MEMÓRIA 1: e, daí, aprendizado.




Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu


Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão


Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar


Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar


Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa


Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia...


quarta-feira, 26 de março de 2014

SENTIDO:

Motivo
Cecília Meirelles
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
 

segunda-feira, 24 de março de 2014

ESTUDANDO:

 



“ Num conto que nunca cheguei a publicar acontece o seguinte: uma mulher, em fase terminal de doença, pede ao marido que lhe conte uma história para apaziguar as insuportáveis dores. Mal ele inicia a narração, ela o faz parar:
- Não, assim não. Eu quero que me fale numa língua desconhecida.
- Desconhecida? - pergunta ele.
- Uma língua que não exista. Que eu preciso tanto de não compreender nada!(...)”

In E se Obama fosse africano? Ensaios, Mia Couto, Companhia das Letras, SP, 2012.

sábado, 22 de março de 2014

UMA SEMANA COM CHICO BUARQUE:


 
"Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim
E me tranquei no camarim
Tomei um calmante, um excitante
E um bocado de gim
Amaldiçoei
O dia em que te conheci
Com muitos brilhos me vesti
Depois me pintei, me pintei
Me pintei, me pintei
Cantei, cantei
Como é cruel cantar assim
E num instante de ilusão
Te vi pelo salão
A caçoar de mim.."

FOI ESPETACULAR! É IMPRESSIONANTE.... é o cara!

 

Hugh Laurie 
VER E REVER
REENCONTRAR... 
O SÁBIO REENCONTRA ,
VERSA A VIDA...
REENCONTRA O NOVO!
THANK YOU, HUGH!

LEMBRETE:



foz do iguaçu - Frases e Imagens
 Na conferência RIO/92, quando se iniciou oficialmente a atenção internacional e prioritária sobre as condições ambientais do planeta, a ONU dedicou o dia 22 de março à ÀGUA. Neste dia foi publicada a Declaração Universal dos Direitos da Água.   Isso aconteceu há 22 anos... E... E... Estamos à beira de uma condição de calamidade universal por causa da ÁGUA.

Declaração Universal dos Direitos da Água


Art. 1º - A água faz parte do patrimônio do planeta.Cada continente, cada povo, cada nação, cada região, cada cidade, cada cidadão é plenamente responsável aos olhos de todos.

Art. 2º - A água é a seiva do nosso planeta.Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. O direito à água é um dos direitos fundamentais do ser humano: o direito à vida, tal qual é estipulado do Art. 3 º da Declaração dos Direitos do Homem.

Art. 3º - Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimônia.

Art. 4º - O equilíbrio e o futuro do nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilíbrio depende, em particular, da preservação dos mares e oceanos, por onde os ciclos começam. 




Art. 5º - A água não é somente uma herança dos nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como uma obrigação moral do homem para com as gerações presentes e futuras.

Art. 6º - A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo.

Art. 7º - A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.

Art. 8º - A utilização da água implica no respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo homem ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado.

Art. 9º - A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.

Art. 10º - O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.  



sexta-feira, 21 de março de 2014

UMA SEMANA COM CHICO BUARQUE:

 

" Pra mim
Basta um dia
Não mais que um dia
Um meio dia
Me dá
Só um dia
E eu faço desatar
A minha fantasia
Só um
Belo dia
Pois se jura, se esconjura
Se ama e se tortura
Se tritura, se atura e se cura
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia.."

quinta-feira, 20 de março de 2014

UMA SEMANA COM CHICO BUARQUE:


 


 
 "Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer.."

quarta-feira, 19 de março de 2014

REFLEXÕES COM ‘MALONE MORRE’ – SAMUEL BECKETT



  

“Uma última olhadela e parece-me que partiria contente como para – ia dizer para Cítera, decididamente já é tempo de parar com isso. Afinal das contas esta janela é o que quero que ela seja, até certo ponto, é isso, não te comprometas. Observo antes de mais nada que ela se tornou singularmente arredondada, até ficar quase parecida com clarabóia, ou com uma escotilha. Tanto faz, desde que haja alguma coisa do outro lado. Vejo primeiro a noite, o que me espanta, pergunto-me por quê, porque quero ser espantado, uma vez mais. Pois aqui em casa não há noites, sei, aqui nunca há noites, apesar de tudo o que disse, mas na maior parte das vezes é mais claro que neste momento, enquanto que lá fora é noite fechada, com poucas estrelas, mas suficientes para indicar que o céu é negro e o dos homens e não simplesmente pintado na vidraça, pois elas tremem, como verdadeiras estrelas, o que não aconteceria se fossem pintadas.”

In Malone morre, Samuel Beckett, Editora Opera Mundi, RJ, 1973.