quarta-feira, 5 de março de 2014

Dois toques:




“Pois bem, estou em Paris... Mas não pensem que eu vá contar muito a vocês sobre a cidade propriamente dita. Penso que, em russo, já leram tanto sobre ela que até já estão fartos. Ademais, vocês mesmos estiveram ali, e certamente observaram tudo melhor que eu. Quanto a mim, não suportava, no estrangeiro, examinar uma cidade segundo o guia, por encomenda, por obrigação de viajante; e assim, em alguns lugares, deixei de ver coisas que dá vergonha contar. Deixei de vê-las também em Paris. Não direi a você o que foi precisamente que eu deixei de ver, mas em compensação direi o seguinte: formulei uma definição de Paris, escolhi para ela um epíteto e insisto nele. Precisamente: é a mais mural, a mais virtuosa cidade de todo o globo terrestre. Que ordem! Que sensatez, como são definidas e firmemente estabelecidas as relações; como tudo está assegurado, moldado em regras; como todos estão contentes e felizes, a ponto de se terem realmente convencido disto, e... e... detiveram-se aí. Nem há caminho para ir mais longe. Vocês não acreditarão que pararam aí; vão gritar que exagero, que tudo isto é uma calúnia biliosa e patriótica, que tudo não podia realmente se deter aí! Mas, meus amigos: eu os avisei, ainda no primeiro capítulo destas notas, de que talvez fosse pregar-lhes terríveis mentiras. Não me atrapalhem portanto . Vocês também sabem com certeza que, se eu mentir, terei assim mesmo certeza de não estar mentindo. E, a meu ver, isto é mais que suficiente. E, neste caso, permitam que me expresse livremente.”

In O crocodilo e Notas de Inverno sobre impressões de verão, Fiódor Dostoiévski, Editora 34, RJ, 2011
7640085

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