domingo, 2 de março de 2014

Mais um pouco:




“Se me pusesse a gritar? Não que queira chamar atenção sobre mim, seria somente para tentar saber se há alguém. Mas não gosto de gritar. Falei baixinho, fui de mansinho sempre, como convém a quem não tem nada para dizer nem sabe para onde ir. Pois nestas condições é preferível não se fazer notar. Sem contar que pode muito bem não haver ninguém num raio de cem passos, e depois uma população tão densa que as pessoas andam umas por cima das outras. Não se ousa aproximar. Nesse caso eu me esgoelaria sem lucro algum. Apesar de tudo vou tentar. Tentei. Não ouvi nada de insólito. Sim, uma espécie de rangido queimando no fundo da traqueia como quando se tem azia. Como um pouco de treino acabaria talvez por deixar ouvir um gemido. O melhor seria dormir. Infelizmente não tenho sono. Aliás não devo mais dormir. Que tédio. Perdi o bonde. Terei dito que eu digo apenas uma fraca parte das coisas que me passam pela cabeça? Devo ter dito. Escolho aquelas que  parecem apresentar uma certa ligação entre elas. Nem sempre é fácil. Espero que sejam as mais importantes. Pergunto-me se vou poder parar. Se jogasse fora a minha ponta de lápis. Não a acharia nunca. Poderia arrepender-me. Minha pontinha. É um risco que não estou disposto a correr neste momento. Então como fazer?”

In Malone Morre, Samuel Beckett, Editora Opera Mundi, R, 1973.

 


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