domingo, 16 de março de 2014

REFLEXÕES COM ‘MALONE MORRE’ – SAMUEL BECKETT

 



“Basta-me abrir os olhos para que recomecem o céu e a fumaça dos homens. Vejo e ouço muito mal. O que está longe só é iluminado por reflexos, é pra mim que meus sentidos estão virados. Mudo, obscuro e sem graça, não sou feito para eles. Estou longe dos barulhos de sangue e de fôlego, incomunicável. Não falarei dos meus sofrimentos. Enfurnado no mais profundo deles não sinto nada. É aqui que morro, à revelia de minha carne estúpida. O que sê, o que grita e se agita, são as sobras. Elas se ignoram. Em algum lugar desta confusão o pensamento se esforça, também ele longe de conseguir. Ele também me procura, como sempre fez, onde não estou. Ele também não sabe se acalmar. Estou cheio. Que passe para sua raiva de agonizante. Enquanto isso estarei tranquilo. Tal parece ser a minha situação.”

In Malone morre, Samuel Beckett, Editora Opera Mundi, RJ, 1973.

P.S: a tradução brasileira é de Paulo Leminski, vale conferir. 

Malone morre

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