segunda-feira, 17 de março de 2014

REFLEXÕES COM ‘MALONE MORRE’ – SAMUEL BECKETT



“A esta hora pois, que reabre para tantas pessoas a vida do repouso e das distrações, os casais, cuja maioria se reduz a uma simples questão de interesse erótico, são pouco numerosos comparados com os solitários, cortando em todos os sentidos as ruas e encruzilhadas, obstruindo as proximidades dos lugares de prazer, com os cotovelos apoiados nos parapeitos, encostados espaçadamente nas paredes dos prédios. Mas eles não demoram a chegar lá onde são esperados, uns em suas casas ou nas casas alheias, outros fora, como se diz,num lugar público ou num lugar marcado, muitas vezes numa entrada ou debaixo de uma marquise, provendo a chuva. E dentre estes últimos os primeiros chegados só chegaram há muito pouco, pois palavras que todos se apressam uns para os outros, pois sabem que o tempo que lhes resta é curto para dizer tudo que em no coração e no estômago e para fazer as coisas que têm de fazer juntos, as que não podemos fazer sozinhos. Ei-los pois ainda por algumas horas em segurança. Depois será o sono, o caderninho de notas que tem seu pequeno lápis, as despedidas entre bocejos. Alguns até tomam um fiacre, a fim de chegar mais depressa ao encontro, ou terminado o bom tempo, de chegar em casa, ou no hotel, onde uma boa cama os espera...”

In Malone morre, Samuel Beckett, Editora Opera Mundi, RJ, 1973.

 

Malone morre faz parte da trilogia, com O inominável e Molloy

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