terça-feira, 18 de março de 2014

REFLEXÕES COM ‘MALONE MORRE’ – SAMUEL BECKETT

 



“E com certeza não acredita mais nisso, de tanto ter esperado em vão. E talvez tenha chegado ao instante em que viver é errar sozinho vivendo no fundo de um instante sem limites, em que a luz não varia e em que os destroços se parecem. Os olhos apenas mais azuis que uma clara de ovo fixam o espaço diante deles, que seria então a plena calma eternamente dos abismos. Mas de vez em quando eles se fecham com esta doce brusquidão das carnes que se apertam, muitas vezes sem cólera, e se tornam a fechar sobre si mesmas. Então vemos as velhas pálpebras, vermelhas e amarrotadas, que parecem ter dificuldade de se unirem, pois existem quatro, duas para cada lágrima. E é então talvez que ele vê o céu do velho sonho, dos cruzeiros e da terra também , e os espasmos das vagas das quais nenhuma se movimenta sem que todas as outras se movimentem da mesma forma, e o movimento tão diferente dos homens por exemplo, que não estão presos uns aos outros mas livres para ir e vir, cada um segundo sua vontade. E eles não deixam de fazê-lo e vão e vêm, no barulho de matracas de seus estalos de grandes articulados, cada um de seu lado. E quando um morre os outros continuam, como se nada houvesse acontecido.
Sinto.
Sinto que está vindo. Como vai, obrigado, vem. Quis ter a certeza antes de tomar nota. Escrupuloso ate o fim, aí está Malone, a cavalo sobre os cabelos. Certeza quero dizer de sentir que é para dentro em breve, pois nunca duvidei que isso não viesse mais cedo ou mais tarde, salvo talvez nos dias em que me parecia já ter vindo.”

In Malone morre, Samuel Beckett, Editora Opera Mundi, RJ, 1973.

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