quarta-feira, 19 de março de 2014

REFLEXÕES COM ‘MALONE MORRE’ – SAMUEL BECKETT



  

“Uma última olhadela e parece-me que partiria contente como para – ia dizer para Cítera, decididamente já é tempo de parar com isso. Afinal das contas esta janela é o que quero que ela seja, até certo ponto, é isso, não te comprometas. Observo antes de mais nada que ela se tornou singularmente arredondada, até ficar quase parecida com clarabóia, ou com uma escotilha. Tanto faz, desde que haja alguma coisa do outro lado. Vejo primeiro a noite, o que me espanta, pergunto-me por quê, porque quero ser espantado, uma vez mais. Pois aqui em casa não há noites, sei, aqui nunca há noites, apesar de tudo o que disse, mas na maior parte das vezes é mais claro que neste momento, enquanto que lá fora é noite fechada, com poucas estrelas, mas suficientes para indicar que o céu é negro e o dos homens e não simplesmente pintado na vidraça, pois elas tremem, como verdadeiras estrelas, o que não aconteceria se fossem pintadas.”

In Malone morre, Samuel Beckett, Editora Opera Mundi, RJ, 1973.

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