terça-feira, 29 de abril de 2014

MAIS:

Teatro Grego
“Nas sociedades arcaicas, o conto oferece à comunidade um terreno de experimentação em que,  pela voz do contador, ela se exerce em todos os confrontos imagináveis, disto decorre sua função de estabilização social, a qual sobrevive por muito tempo às formas de vida ‘primitiva’ e explica a persistência das tradições narrativas orais, para além das transformações culturais: a sociedade precisa da voz de seus contadores, independentemente das situações concretas que vive. Mais ainda: no incessante discurso que faz de si mesma, a sociedade precisa de todas as vozes portadoras de mensagens arrancadas à erosão do utilitário: do canto, tanto quanto da narrativa. Necessidade profunda, cuja manifestação mais reveladora é, sem dúvida, a universalidade e perenidade daquilo que nós designamos pelo termo ambíguo de teatro.”

In Introdução à poesia oral, Paul Zumthor, Humanitas, Editora UFMG, BH, 2010

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Reflexões: oralidade e escrita



 
 
“Um discurso concreto, ao invés de remeter a coordenadas tipológicas, provoca uma energia destruidora das coordenações”. (...) Além do mais, não podemos negligenciar as variações individuais que o contador e seus ouvintes operam sobre estas regras, em virtude de suas necessidades particulares e da qualidade de suas relações mútuas. O conto, para aquele que o narra (como a canção para aquele que a canta), constitui a realização simbólica de um desejo; a identidade virtual que, na experiência das palavras, se estabelece um instante entre o narrador, o herói e o ouvinte, cria, segundo a lógica do sonho, uma fantasmagoria libertadora.”

In Introdução à poesia oral, Paul Zumthor, Hamanitas, Editora UFMG, BH, 2010.

domingo, 27 de abril de 2014

Sugestão:

 



“Recordo-me dele (eu não tenho do direito de pronunciar esse verbo sagrado, só um homem na Terra teve esse direito e esse homem morreu) segurando uma sombria flor-da-paixão, vendo-a como ninguém a viu, ainda que a olhasse do crepúsculo do dia até o da  noite,  por toda uma vida inteira. Recordo-me dele, a cara de índio taciturna e singularmente remota, atrás do cigarro. Recordo (creio) suas mãos afiladas de trançador. Recordo, perto daquelas mãos, uma cuia de mate, com as armas da Banda Oriental; recordo na janela da casa uma esteira amarela, com uma vaga paisagem lacustre. Record claramente a voz...”

In Junes, o memorioso, in Ficções, Jorge Luis Borges, Companhia das Letras, SP, 2013

http://2.bp.blogspot.com/_E2HZs6lij0Q/TDNXLsHC5gI/AAAAAAAAAQ0/71OxfYmOFdE/s1600/Fic%C3%A7%C3%B5es,+Jorge+Luis+Borges.jpg

sábado, 26 de abril de 2014

Gabo 9

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“Às quatro da tarde a brisa se acalmou. Como não via nada mais que água e céu, como não tinha qualquer ponto de referência, mais de duas horas se passaram antes que eu percebesse que a balsa estava avançando. Na realidade, desde o momento em que me vi dentro dela, começou a se movimentar em linha reta, empurrada pela brisa, a uma velocidade maior do que a que eu poderia lhe imprimir como os remos. Entretanto, não tinha a menor idéia sobre a minha direção nem posição. Não sabia se a balsa avançava para a costa ou para o interior do Caribe, mas essa última hipótese me parecia a mais provável, pois sempre achei impossível que o mar lançasse à terra alguma coisa que nele tivesse penetrado 200 milhas, muito menos se essa coisa era algo tão pesado como um homem numa balsa. (...)
No princípio contava os dias recapitulando os acontecimentos: o primeiro dia, 28 de fevereiro, foi o do acidente. O segundo, o dos aviões. O terceiro foi o mais...”.

In Relato de um náufrago, Gabriel García Marquez, Record, SP, 1970.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

AMÉM!!



 
PSICANÁLISE DA VIDA COTIDIANA


 

CARLOS VIEIRA


Hoje escrevo sobre poesia. Nesse nosso tempo de tantas crises, de inquietações sociais, de manifestações populares, de denúncias várias de corrupções e crimes hediondos, nada melhor do que ter um tempo de reflexão poética, literária, afinal a Literatura é uma forma de vida que oferece, ás vezes, um lenitivo para nossas angústias existenciais.
Escolho um poema – “BRIZA”, de Manuel Bandeira, um dos seus queridos, selecionados pelo próprio poeta num livro editado pela Ediouro em 2002 – “Manuel Bandeira – Meus Poemas Preferidos.”
Bandeira escreveu em seu Itinerário de Pasárgada: “Quando cai doente em 1904, fiquei certo de morrer dentro de pouco tempo: a tuberculose era ainda o “mal que não perdoa”. Mas fui vivendo, morre não morre, em 1914 o Dr. Bodmer, médico-chefe do sanatório de Clavedel, tendo-lhe perguntado quantos anos me restariam, respondeu-me sorrindo: “O senhor tem lesões teoricamente incompatíveis com a vida; no entanto está sem bacilos, come bem, dorme bem, não apresenta, em suma, nenhum sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez, quinze anos...Quem poderá dizer?”.
Bandeira viveu mais 54 anos, escrevendo, atravessando momentos de aflições respiratórias mas “curando-se na vida” pela veia da poética, por sua atitude perene de um homem “alumbrado” com a vida. Observador permanente dos fatos concretos e sutis da natureza humana; poeta maior que se sentia à vontade ao caminhar na travessia do parnaso, lírico e moderno, sem perder sua doçura, sua capacidade sublime de cantar a vida, o amor, a paixão e a morte.

Vejamos seu poema – “Brisa”:

“Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.”

O poema é um projeto, uma fantasia, um desejo, desejo sob a égide da paixão. Quem observa já o primeiro verso pensa em alguém inquieto, lamentando sua situação presente, e colocando no tempo futuro, o tempo da realização do desejo, a sua vontade de voltar de onde saiu – o Nordeste, com certeza, Pernambuco, Recife, ladeada por rios e mares, formando um cenário lírico chamado pelos pernambucanos de “Veneza Brasileira”.
Anarina, sua musa, a mulher que ama e que quer arrancá-la do seu lugar, dos seus vínculos afetivos e colocá-la na liberdade fresca da “brisa”. Brisa, vento fresco e brando que, de dia, sopra do mar para a terra ou do vale para a montanha e, de noite, em sentido contrário. Brisa que refresca o calor, o calor do tempo mas também o calor sufocante de querer voltar e, quem sabe não poder, voltar com Anarina. O poema fala de um amor egocêntrico (como todo amor?), um amor que rouba, que exclui tudo e todos para a sua satisfação. Um amor que como todo amor implica em pactos. Aqui o pacto é: deixarei tudo e tudo deixarás para vivermos na brisa, na liberdade, na soltura, na metáfora do amor ideal.
O poeta sabe que lá, no Nordeste também há calor, claro que sabe, mas é um calor talvez sem a sensação de aprisionamento, de perda de respiração, de falta de ar. No Nordeste tudo vai melhorar, tudo vai fluir pois “vamos viver de brisa, Anarina”.
Viver de brisa não é sinônimo de não trabalhar, de ociosidade permanente; viver de brisa, Manuel Bandeira fala de uma vida menos angustiante, menos moldada por uma ideologia executiva, trabalhar, trabalhar, consumir, gastar, ganhar mais, enfim, viver de uma maneira vazia, onde na vida não se encontra mais a leveza do amor, do simples, do provinciano, do bucólico. Bandeiras e Anarinas poderiam muito bem fazer transformações em suas vidas. A “brisa” de Bandeira é a liberdade, uma nova elaboração da qualidade de vida, uma vida com mais humanidade e menos, ou nenhuma selvageria daquela da cidade grande. O Amor do poeta por Anarina talvez seja um amor mais leve, menos apegado à materialidade e ao consumismo. Bandeira estava buscando uma cumplicidade com Anarina, cumplicidade que pudesse oferecer uma vida cheia de cores, de ondas, de mar, de sentimento oceânico de plenitude. Bandeira queria alguém para respirar pureza de alma! O poema grita por liberdade, talvez de alguém sufocado, saudoso, vivendo longe das suas entranhas pernambucanas. Penso em, “Vou-me embora para Pasárgada”. Lá, nesse poema lemos: “E quando eu estiver mais triste/ Mais triste de não ter jeito/Quando de noite me der/ Vontade de me matar/ – Lá sou amigo do rei - Terei a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei/ Vou-me embora para Pasárgada.”

Vou me embora para o Nordeste, lá tem brisa: “Vamos viver de brisa, Anarina.”


Carlos de Almeida Vieira - psicanalista e psiquiatra.

 
p.s: obrigada, Ananias.