domingo, 13 de abril de 2014

ESTUDANDO:

 



“Desde que P. Sébillot criou, em 1881, a expressão ‘literatura oral’, esta designa, alternadamente e num sentido estrito, entre os etnólogos, um tipo de discurso com finalidade sapiencial ou ética; e, num sentido amplo, entre os raros historiadores da literatura interessados por estes problemas, todos os tipos de enunciados metafóricos ou ficcionais que ultrapassam o valor de um diálogo entre indivíduos: contos, jogos verbais infantis, facécias e outros discursos tradicionais, bem como as narrativas de antigos combatentes, as fanfarronices eróticas e tantas outras fortemente marcadas, urdidas em nossa fala cotidiana.
No meio de um conjunto tão vasto quanto pouco consistente, a ‘poesia oral’ (de acordo com a definição que dela farei progressivamente ) se distingue pela intensidade dos seus caracteres, sendo formalizada mais rigorosamente e provida de indícios de estruturação mais evidentes. Sabemos que toda cultura possui seu próprio sistema passional, cujas configurações de base percebemos graças a marcas semânticas mais ou menos dispersas, porém específicas, em cada um dos testos que ela produz. O texto poético oral parece ser aquele em que estas marcas são mais densas. Vem daí a impressão que  a poesia oral às vezes provoca: a de, mais intimamente que o conto, aderir ao que a existência coletiva comporta de mais repetitivo em nível profundo; daí uma redundância particular e uma variedade mínima nos temas.
(...)
E finalmente, como última restrição, na medida (bastante incerta!) do possível, circunscrevo, na ‘poesia oral’, um subgrupo, a ‘poesia cantada’, nela concentrando a atenção e a audição. Não duvido de que, assim, fazendo, permito-me uma facilidade. Ao menos estou certo (e espero prová-lo) de que este artifício permite atingir facilmente algo central, e é a partir daí que o panorama se ilumina... até os confins da ‘literatura oral’ no sentido amplo, talvez mesmo de toda a literatura".

In Introdução à poesia oral, Paul Zumthor, Editora UFMG, BH, 2010.

 

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