quarta-feira, 16 de abril de 2014

ESTUDOS: A LOUCURA 1



“A quem me censurar o sarcasmo, responderei que o escritor sempre teve a liberdade de zombar impunemente das condições comuns da vida, contanto que não seja ofensivo. Admiro a delicadeza dos ouvidos de nosso tempo, que já não admitem senão uma linguagem sobrecarregada de solenes lisonjas. Até a religião parece ser compreendida às avessas,quando vemos pessoas menos escandalizadas pelas maiores blasfêmias contra Jesus Cristo do que pelo mais leve gracejo sobre um papa ou sobre um príncipe, mormente se comem seu pão.
Criticar os costumes dos homens sem atacar ninguém pessoalmente, será algo realmente mordaz? Não será antes instruir e aconselhar? De resto, não faço sem cessar minha própria crítica: uma sátira que não poupa nenhuma das condições humanas não agride homem algum em particular, mas sim os vícios de todos. E se alguém se levanta a gritar que foi ferido, é que realmente se reconhece culpado, ou pelo menos se confessa inquieto. Neste gênero, São Jerônimo mostrou-se mais livre e mais acerbo, à vezes sem poupar os nomes. De minha parte, abstive-me de mencionar um único nome, e tanto moderei meu estilo que o leitor inteligente verá sem dificuldade que meu intuito era divertir, de modo algum magoar. Não remexi, como Juvenal, no esgoto dos vícios ocultos; não cataloguei as torpezas, mas sim os ridículos. Se ainda houver um obstinado que esta argumentação não tranquilize, peço-lhe que pense na honra que é ser atacado pela Loucura, pois é ela que ponho no palco, com todas as características de sua personagem.”
 

In Elogio da Loucura, Erasmo de Rotterdam, Martins Fontes, SP, 1990.

 Livro Elogio Da Loucura De Erasmo De Rotterdam - Novo

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