quinta-feira, 17 de abril de 2014

ESTUDOS: A LOUCURA 2

 



“As pessoas deste mundo falam muito de mim, e estou a par de todo o mal que se ouve falar da Loucura, mesmo entre os loucos. E no entanto sou eu, e mais ninguém, que alegro do Deuses e os homens. Hoje mesmo isto é amplamente comprovado, pois me bastou aparecer diante deste numeroso auditório para surgir em todos os olhos a mais resplandecente alegria. Imediatamente, vosso roso ergueu-se para mim e vosso amável riso aplaudiu-me todo contente. Vejo-vos todos, não importa quantos sejais, ébrios do néctar dos deuses de Homero, misturado, porém, com um pouco de nepentes, ao passo que há um instante estáveis sentados, preocupados e triste, como fugitivos do antro de Trofônio.
“Afastemos os sábios, que consideram insano e impertinente quem faz o próprio elogio. Se isto é ser louco, convém-me às mil maravilhas. Que melhor para a Loucura do que trombetear ela mesma sua glória e cantar-se a si mesma! Quem me pintaria com mais veracidade? Não sei de ninguém que me conheça melhor que eu mesma. Creio, aliás, demonstrar nisso mais modéstia do que este douto ou aquele grande que, por perverso pudor, suborna em seu proveito a adulação de um retórico ou as invenções de um poeta, e os paga para ouvir louvações, isto é, puras mentiras. Entretanto, nossa pudica personagem abre a cauda em leque como um pavão, levanta a crista, enquanto impudentes aduladores comparam aos deuses a sua nulidade e a apresentam, convencidos do contrário, como um rematado modelo de todas as virtudes; enfeitam a gralha com penas emprestadas, embranquecem o etíope e apresentam a mosca como um elefante. Afinal, utilizando mais um velho provérbio, declaro que temos razão em louvar-nos a nós mesmos quando não encontramos ninguém para fazê-lo.”


In Elogio da Loucura, Erasmo de Rotterdam, Martins Fontes, SP, 1990.
 

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