sexta-feira, 18 de abril de 2014

ESTUDOS: A LOUCURA 3

 



“Nem Caos, nem Orco, nem Saturno, nem Jápeto, nenhum destes deuses antiquados e poeirentos foi meu pai. Nasci de Pluto, único genitor dos homens e dos Deuses, em que pese a Homero e a Hesíodo, e ao próprio Júpiter. Um mero gesto seu, hoje como outrora, convulsiona o mundo sagrado e o mundo profano; é ele quem regula a seu bel-prazer guerras, paz, governos, conselhos, tribunais, comícios, casamentos, tratados, alianças, leis, artes, prazer, trabalho... falta-me fôlego... todos os negócios públicos e privados dos mortais. Sem sua ajuda, toda a legião de divindades poéticas, ou melhor dizendo, os próprios grandes Deuses não existiriam, ou, pelo menos, teriam mau passadio na morada. Aquele que irritou Pluto, Palas em pessoa não o salvaria; quem ele protege pode zombar até de Júpiter trovejante. Assim é meu pai, e dele me orgulho. Não me engendrou no cérebro, como fez Júpiter com essa triste e arredia Palas, mas fez-me nascer da Juventude, a mais deliciosa e alegre de todas as ninfas. Entre ambos, nenhum laço do aborrecido matrimônio, bom para produzir um ferreiro manco tal qual Vulcano, mas somente o comércio do Amor, como diz nosso Homero, o que é infinitamente mais doce. Não penseis, peço-vos, no Pluto de Aristófanes, que é um velho decrépito e meio cego; meu pai foi um Pluto ainda robusto, todo inflamado de juventude, e não só por sua juventude, mas também pelo néctar que por certo acabava de tomar em grandes goles no banquete dos Deuses.”

(Pluto, o deus da riqueza, filho de Jasão e de Ceres)

In Elogio da Loucura, Erasmo de Rotterdam, Martins Fontes, SP, 1990.
 
 

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