sexta-feira, 18 de abril de 2014

GABO 1:

O veneno da madrugada 

“O dentista havia permanecido todo o tempo junto à cadeira. Quando os policiais foram embora, tirou o tampão da gengiva e, em seguida, explorou a boca com a lâmpada, voltou a ajustar as mandíbulas e afastou a luz. Tudo havia terminado. No pequeno e escaldante quarto ficou então essa espécie de mal estar que só conhecem os varredores de um teatro depois que o último ator vai embora.
 - Mal agradecido – disse o alcaide.
O dentista pôs as mãos nos bolsos do avental e deu um passo atrás, par deixá-lo passar. “Eu tinha ordem de pôr a casa abaixo”, prosseguiu o alcaide, procurando os olhos do dentista por detrás da órbita da luz. “Tinha instruções precisas para encontrar armas e munições, bem como documentos com pormenores de uma conspiração nacional”. Fixou no dentista os olhos ainda úmidos e acrescentou: “Acreditei que faria bem desobedecendo à ordens, mas me enganei. Agora as coisas estão mudando, a oposição conta com garantias e todo mundo vive em paz. Apesar disso, você continua agindo e pensando como um conspirador”. O dentista enxugou com a manga a almofada do espaldar da cadeira e a ajustou do lado que não havia sido destruído.
- Sua atitude prejudica o povo – prosseguiu o alcaide, apontado a almofada, sem perceber o olhar pensativo que o dentista dirigiu à sua bochecha. – Pois agora é o município que tem de pagar por tudo isso que foi destruído, inclusive a porta da rua. Um dinheirão, e tudo por causa de suas bobagens.
- Faça bochechos com água de alforva – disse o dentista.”

In O VENENO DA MADRUGADA, Gabriel Garcia Marquez, Editora Sabiá Ltda, Rio de Janeiro, Guanabara, 1970, ilustrações de Carybé.

Ilustrações de 'Cem anos de solidão', que iluminam ainda mais o texto maravilhoso de Gabriel.

http://paisportatil.files.wordpress.com/2011/07/macondo-2.jpg 

 
 

 

 

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