segunda-feira, 21 de abril de 2014

Gabo 4



“Na segunda vez que o encontraram carcomido pelos urubus no mesmo gabinete, com a mesma roupa e na mesma posição, nenhum de nós era bastante velho para recordar o que se passou na primeira vez, mas sabíamos que nenhuma evidência de sua morte era terminante, pois sempre havia outra verdade atrás da verdade. Nem mesmo os menos prudentes nos conformávamos com as aparências, porque muitas vezes se havia dado por verdade que estava prostrado pela epilepsia e desabava do trono no curso das audiências torto pelas convulsões e espumando de fel pela boca, que havia perdido a fala de tanto falar e tinha ventríloquos escondidos atrás das cortinas para fingir que falava, que lhe estavam saindo escamas de savelha por todo o corpo como castigo por sua perversão, que na friagem de dezembro a hérnia cantava-lhe canções de navegantes e só podia caminhar com a ajuda de uma carreta ortopédica na qual levava o testículo herniado...”

In O outono do patriarca, Gabriel Garcia Marquez, Record, SP, 1975.

 

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