quinta-feira, 24 de abril de 2014

Gabo 7



“Trouxe um revólver para você – murmurou.
O Coronel Aureliano Buendía verificou que o sentinela não estava por perto. ‘Não me serve de nada’, respondeu em voz baixa. ‘Mas deixe comigo, para que não a apanhem na saída’. Úrsula tirou o revólver da combinação e ele o pôs debaixo da esteira do catre. ‘E agora não se despeça’, concluiu com uma firmeza calma. ‘Não suplique a ninguém nem se rebaixe diante de ninguém. Faça de conta que já me fuzilaram há muito tempo’. Úrsula mordeu os lábios para não chorar.  
- Ponha pedras quentes nos furúnculos – disse.
Deu meia volta e saiu do quarto. O Coronel Aureliano Buendía permaneceu de pé, pensativo, até que a porta se fechou. Então voltou a se deitar com os braços abertos. Desde o princípio da adolescência, quando começou a ser consciente dos seus presságios, pensava que a morte se havia de anunciar com um sinal definido, inequívoco, irrevogável, mas faltavam poucas horas para ele morrer, e o sinal não aparecia. Certa ocasião uma mulher muito bonita entrou no seu acampamento de Tucurinca e pediu aos sentinelas que lhe permitissem vê-lo. Deixaram-na passar, porque conheciam o fanatismo de algumas mães que enviavam as filhas ao quarto dos guerreiros mais notáveis, conforme elas mesmas diziam, para melhorar a raça. O Coronel Aureliano Buendía esta naquela noite terminando o poema do homem que se extraviara na chuva, quando a moça....”

In Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez, Record, 20ª edição, SP, 1990. Ilustrações de Carybé.
 
 
 

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