sexta-feira, 25 de abril de 2014

Gabo 8



“Para fins de janeiro o mar ia-se tornando áspero. Começava a despejar sobre o povoado um lixo espesso, e poucas semanas depois tudo estava contaminado por seu humor insuportável. A partir de então o mundo não valia a pena, pelo menos até o outro dezembro,  e ninguém ficava acordado depois das oito. Mas no ano em que o senhor Herbert chegou o mar não se alterou, nem mesmo em fevereiro. Ao contrário, fez-se cada vez mais liso e fosforescente, e nas primeiras noites de março exalou uma fragrância de rosas.
Tobias sentiu-a. Tinha o sangue doce para os caranguejos e passava a maior parte da noite espantando-os da cama, até que voltasse a brisa, quando conseguia dormir. Em suas longas insônias aprendera a distinguir toda mudança de ar. De modo que, quando sentiu cheiro de rosas, não teve que abrir a porta para saber que era um cheiro do mar”.

In A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada, Gabriel Garcia Márquez, Record, SP, 1972. Ilustrações de Carybé. 
 

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