sábado, 10 de maio de 2014

CARLOS E JOÃO:


Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa e Manoel Bandeira.


 (Carlos, João e Manoel)

UM CHAMADO JOÃO

João era fabulista?
Fabuloso?
Fábula?
Sertão místico disparando
No exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
A quinta face das coisas
Inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
Para disfarçar, para farçar
O que não ousamos compreender?

Tinha pastos, buritis plantados
No apartamento?
No peito?
Vegetal ele era ou passarinho
Sob a robusta ossatura com pinta
De boi risonho?

Era um teatro
E todos os artistas
No mesmo papel,
Ciranda multívocca?
João era tudo?
Tudo escondido, florindo
Como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
Deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
Cada qual em sua cor de água
Sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
Nome, curva, fim,
E no destinado geral.
Seu fado era saber
Para contar sem desnudar
O que não deve s r desnudado
E por isso se veste de véus novos?
Mágico sem apetrechos,
Civilmente mágico, apelador
De precipites prodígios acudindo
A chamado geral?
Embaixador do reino
Que há pro trás dos reinos,
Dos poderes, das
Supostas fórmulas
De abracadabra, sésamo?
Reino cercado
Não de muros, chaves, códigos,
Mas o reino-reino?

Por que João sorria
Se lhe perguntavam
Que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
Menos a resposta que
Outra questão ao perguntante?
Tinha parte com... (sei lá
O  nome) ou ele mesmo era
A parte de gente
Servindo de ponte
Entre o sub e o sobre
Que se arcabuzeiam
De antes do princípio,
Que se entrelaçam
Para melhor guerra,
Para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
E se João existia
De se pegar.

21/11/ 67 - Carlos Drummond de Andrade; publicado no Correio da Manhã de 22 de novembro de 1976, três dias após a morte de João Guimarães Rosa. 

In Sagarana, João Guimarães Rosa, Editora Nova Fronteira, RJ, 2001.

 





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