terça-feira, 27 de maio de 2014

COPA 3: futebol levado a sério



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“Mas a afirmação da consciência crítica, quando supostamente imune aos efeitos do inconsciente, e acima da alienação da massa, tem dificuldade de entender que, mais do que o campo deserto da vida vazia, o futebol é um campo de jogo em que se confronta o vazio da vida, isto é, a necessidade premente de procurar-lhe sentido. Procurar, aqui, na acepção ativa que inclui também encontrar, emprestar e inventar sentido – ali onde ela falta como dado, mas sobra como disposição a fazê-lo acontecer. Como na dança e na música, o jogo  é um perseguidor e um procurador do sentido que falta – um representante do que não está, sem que, com isso, se pretenda dá-lo com o presente. Essa ‘produção de presença’, evidentemente não intencionada e não formulada nesses termos, se dá numa temporalidade própria, em ato, com meios elementares e concretos, e se repõe porque não se esgota, na sua instantaneidade, na sua imediatez e na indeterminação aberta de seus conteúdos.  (...) Para quem a vida se alimenta, no entanto, na sua multiplicidade aberta, de uma margem irrecusável de desejo e acaso – em uma palavra, de jogo - , o futebol pode ser objeto simultâneo de paixão e desafio intelectual. Essa disposição não é muito diferente daquela que é pedida pela arte – que supõe certa dose de aceitação da violência simbólica e da gratuidade.”

In veneno remédio, O futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik, Companhia das Letras, 2008.

 

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